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domingo, 17 de junho de 2012

Indicialidade

A existência intemporal de diferentes significados, que surgem em contextos distintos, é um dos atributos que poderá ser conferido ao som, quando cruzado com a linguagem, num contexto radiofónico. 
A Etnometodologia e, mais precisamente, uma das suas preocupações – a Indicialidade – mostra a forma como os agentes sociais utilizam a linguagem, como uma espécie de mecanismo flexível e facilmente adaptável, que permite uma interacção complexa a cada palavra proferida, sem deixar de sublinhar os diferentes sinais, que podem ser expressos através de determinadas componentes semânticas. 
De acordo com Bar-Hillel, por exemplo, mais de 90% dos sinais-proposição declarativos, produzidos por uma pessoa, são o resultado das tais “expressões indiciais”:
«É claro que muitas frases com verbos no passado são indiciais, para já não mencionar que contêm termos como eu, tu, aqui, aí, agora, ontem e isto»[1].
 (Bar-Hillel, 1970, p.76)
Ter em consideração as redes de significação que são estabelecidas por intermédio dos signos linguísticos, é um dos aspectos contemplados na desconstrução das “expressões indiciais”, e pode estar na génese da análise das especificidades do som, ou até do processo de configuração da dicção colocada pelos locutores de rádio. 
Neste contexto, a Etnometodologia funciona como uma corrente fundamental, quando associada à significância da discursividade sonora, até porque, da mesma forma que os jornalistas de rádio utilizam a linguagem comum para comunicar com os ouvintes, também os etnometodólogos descrevem e interpretam a realidade social, a partir dos recursos linguísticos mais simples que o homem “de todos os dias” utiliza nas narrativas quotidianas. 
Esta analogia parece fazer sentido, principalmente quando se parte do pressuposto que a escolha dos etnometodólogos, por uma análise da linguagem comum, reflecte não só a espontaneidade das relações sociais, mas também o seu sentido “efectivo”, ou seja, desprovido de “comportamentos postiços” que possam indiciar falsas interpretações.


[1] Bar-Hillel,Yehoshva. (1970) «Indexical Expressions», in Aspects of Language, Jerusalém, p.76 – Citado por: Giddens, Anthony. (1996) «Novas Regras do Método Sociológico», Lisboa, Gradiva.  

Realidade Distorcida


 “…a atitude natural não presume a suspensão na crença da realidade material e social, mas antes o oposto, a suspensão da dúvida de que algo é uma coisa diferente daquela que aparenta ser”[1](Shutz, 1967, p.229)

Esta ideia, de que “algo é uma coisa diferente daquela que aparenta ser”, mostra que a multiplicidade de significados, característica do comportamento humano, resulta da sua procura constante em “tornar o mundo natural inteligível” (Giddens,1996, p.95). Uma procura que não é inocente, mas que tem como propósito desmistificar os quadros de significado, através dos quais é possível perceber os fenómenos enquanto esquemas explicativos, de uma realidade inevitavelmente distorcida pela percepção de cada um. 
É a mediação entre estes quadros de significado divergentes, que caracteriza uma das funções desempenhadas nas rotinas de produção dos jornalistas, e que poderá ser constituída, de acordo com Giddens, como um “problema hermenêutico”, até porque parece ser impossível ignorar o facto de a vida social ser produzida pelos actores que dela fazem parte. A constituição, e consequente reconstituição, de quadros de significado é uma forma que os indivíduos têm para organizar a experiência na vida de todos os dias, e esse facto parece ser evidente quando aplicado ao mundo do jornalismo, em que a teoria de framing não pode estar dissociada da construção de uma realidade, convertida posteriormente, em fragmento noticioso.


[1] Shutz, Alfred. (1967) «On Multiple Realities», in Colleted Papers, vol. 2, Haia – Citado por: Giddens, Anthony. (1996) «Novas Regras do Método Sociológico», Lisboa, Gradiva, p.42.  
[2] Giddens, Anthony. (1996) «Novas Regras do Método Sociológico», Lisboa, Gradiva.  

terça-feira, 1 de maio de 2012

(Im)pressão


“O Eu só se substancializa pela mediação do público (…) os actores de teatro por melhor que saibam os seus papéis e por mais vezes que os tenham representado com sucesso têm sempre medo; o que não é mais do que reconhecer obscuramente o peso decisivo de cada público na substancialização do papel apresentado”[1] (Herpin, 1982, p.80).

A projecção de uma determinada impressão e a sua posterior interpretação, constituem os dois momentos fundamentais ao longo de um qualquer processo de interacção social, que não pode estar dissociado do seu carácter eminentemente simbólico.  Cada actor é responsável pela gestão da sua apresentação pública, pertencendo à audiência o papel de a “condenar” ou “consagrar”.
Neste contexto, a linguagem assume, mais uma vez, um papel preponderante no que diz respeito aos seus processos de comunicação e de mediação, até porque, ainda que inserido numa situação de silêncio, um actor nunca deixa de transmitir uma determinada impressão. Esta questão parece ser significativa, quando se admite a possibilidade das performances corporais e gestuais, assumirem uma posição privilegiada nas interacções e nas formas de comunicação não-verbal.
No entanto, a interpretação da impressão não depende apenas da representação, mas também dos tais “portadores” ou “indícios” de informação mencionados por Goffman em “A apresentação do Eu na vida de todos os dias”, que permitem perceber a relação que poderá ser estabelecida entre a aparência e o estatuto sócio-económico de um actor, por exemplo. A valoração positiva ou negativa que cada actor faz dos estereótipos, que se encontram intimamente associados a determinados papéis sociais, explica a selecção que antecede a escolha dos papéis a que se propõem representar.

«A nossa vida social decorre sobretudo portas adentro»[2]
(Goffman, 1993, p. 285)


[1] Herpin, Nicolas. (1982) «A Sociologia Americana», Porto, Edições Afrontamento.
[2] Goffman, Erving. (1993) «A apresentação do Eu na vida de todos os dias», Lisboa, Relógio d’Água Editores.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Toxicodependência - Introdução

A toxicodependência – uma “realidade escondida e dinâmica”.
Ainda que as últimas estatísticas não sejam alarmantes, o consumo de drogas continua a ser problemático e a intervenção no domínio das toxicodependências, é cada vez mais complexa. O estado de saúde físico e psicológico dos consumidores, as idades de início de consumo, a frequência, a quantidade e a duração do seu uso são alguns dos factores, que justificam os danos associados ao consumo de substâncias psicotrópicas.
De acordo com os resultados de um estudo, destinado a acompanhar a evolução de substâncias psicoactivas, nos grupos etários dos 13 aos 18 anos, o balanço global aponta para a necessidade de se investir numa prevenção de consumos, relativamente à experimentação de drogas estimulantes. O estudo foi divulgado a 16 de Novembro de 2011 e está enquadrado no ESPAD - European School Survey on Alcohol and other Drugs.
Pedro tem hoje 37 anos e foi consumidor de heroína e cocaína durante treze anos consecutivos. Inverter o trajecto de uma vida sem sentido foi o desafio a que se propôs, ao iniciar um tratamento marcado por avanços e recuos.

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