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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mãe do Canto

Mãe do Canto.
Conheceu o mundo a preto e branco e assistiu à evolução das mentalidades. Uma nova postura perante a vida se adivinhava, e ainda bem que assim o era.
Recorda as restrições que teve ao longo da adolescência. A rigidez das regras impostas pelos pais; os preceitos religiosos que respeitava meticulosamente, sem sequer se perguntar sobre o porquê de o fazer;  a voz estridente e claramente indignada de uma mãe que só queria o seu bem, mas que insistia em mostrar-lhe o lado indecente de um beijo; as promessas vazias de um sentimento que nunca conheceu.
Viveu durante grande parte da sua vida para cuidar da família. Foi mãe de três filhos que criou sozinha e a quem deu tudo o que tinha, e o que não tinha.
Os anos passaram.
Os filhos cresceram e foram forçados a sair do país. Um país que os enganou com promessas fáceis e que lhes roubou o chão.
Deixaram a Mãe. Naquele Canto. Aparecem esporadicamente, mas nunca para ficar. Abraçaram um país que lhes deu a vida com que sempre sonharam e compreendia bem isso.
Se pudesse tinha feito o mesmo. Agora já é tarde.
*
Olha para mim. Deixa voar os sonhos e só depois consegue dizer:
"Já não sei viver de outra maneira. O Natal é mais um dia. Sim, já teve sentido. Mas sempre foi o sentido errado."

sábado, 26 de novembro de 2011

“Que seja um bom Natal, para todos nós”


Parecia irónico. Nunca suportei aquela música mas naquele momento fez sentido.

Voltei a olhar para ela. As mãos enrugadas extraíam os poucos tostões que restavam na carteira azul petróleo. Suspirou. Retirou um volume de talões do Continente, cuidadosamente arquivados. Nas costas de um desses talões, começou a escrever. As mãos tremiam.
Não tinha pressa. Vivia sozinha. Daí não reagir bem a ruídos fortes. Respeitava o seu silêncio. Protegia-o.
Rumorejou entre dentes qualquer coisa que não consegui precisar. Depois descansou o olhar em mim e disse: «Este ano não há Natal».
Não lhe senti tristeza no olhar, nem queixume na voz. Estava claramente resignada, por um motivo que agora sei bem qual foi.

De Passagem

Uma tarde confusa. Nos dias de jogo aquela zona era particularmente caótica. «Benfica!» - Gritava um grupo de jovens, escrupulosamente vestido: cachecol encarnado ao pescoço, gorro na cabeça, sorriso estampado no rosto e, como não podia deixar de ser, acompanhados pela loirinha da praxe.
Entrei no café. No canto mais discreto do espaço, lá estava ela: mergulhada em roupas largas e pouco cuidadas. Os olhos postos num naco de pão, que devorava como se não existisse amanhã.
Acena com um gesto de reprovação, depois dos gritos dos entusiastas vindos da loja ao lado. «Nunca gostei de Futebol. Não era agora, depois de velha, que ia gostar», desabafou. Sentiu-se observada. Olhou para mim e perguntou: «a menina gosta?»
Sorri. Apesar da idade, conservava uns olhos grandes, pintados de um verde que já não existe. Um verde que esconde décadas de memórias que pertencem ao passado. Memórias que ficaram longe de tudo o que hoje está perto.
Acenei em jeito de reprovação. Nunca gostei de futebol. Nunca fui capaz de sentir a mínima frustração pela perda de um jogo, por parte do clube “venerado” pela família. Passou-me sempre ao lado. Ainda que me divertisse imenso perante a indignação do meu irmão (fanático pelo Benfica), e a aparente indiferença do meu pai (um espectador passivo e que facilmente “virava a página”).

Mais tarde percebi, que esse tipo de comportamento reflectia a pragmaticidade com que agia perante tudo na vida.