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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fragilidade de um Pensamento Desamparado





Nasci estrangeiro neste mundo.
Não compreendo as vozes, os olhares, os gestos. O porquê de os comportamentos padronizados serem bem aceites, e tudo aquilo que destoa ser declinado.






«É um problema de compreensão», dizes tu. Hannah Arendt afirmou o mesmo: «Compreender engendra profundidade, não engendra sentido».
Talvez seja por isso que não encontro, neste mundo, a minha pátria. A minha casa. O meu lugar.
Vivo na superfície. Incapaz de admitir a possibilidade de uma qualquer reconciliação. Sem vontade de reconhecer a realidade premente que me assola todos os dias.
Uma realidade que às vezes não sei sequer se vale a pena tentar compreender, mas que procuro pensar a sós, como se quisesse entender a minha própria solidão.
Falam-me em singularidade. Chamo-lhe fragilidade. 
Miguel

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Terra do Nunca

Voar. Um desejo ou um medo dificilmente identificável?

«Pensa em coisas boas», lembrava o Peter Pan. Todas as noites era a mesma história. A mesma voz que o tranquilizava. Os traumas de uma infância adiada permaneciam no baú das memórias difíceis de evocar. Mas não havia muito a fazer. O mal já estava feito. Restava-lhe esperar que o amanhã chegasse.
À luz do dia “o tudo” parecia sempre mais suportável, ainda que absorto nas sombras de um trajecto de vida irreversível.
*
De olhos postos no chão, o Miguel contava parte da história que ainda hoje o acompanha. A voz embargada, abria uma ferida latente e evidenciava uma dor difícil de esconder.
Na maioria das vezes, preferia jogar ao “faz de conta” e trancar os fantasmas a sete chaves. Como se nada tivesse acontecido. Mas eles voltavam. Sempre.
«Tinha dez anos na altura. Não sabia sequer o que estava a fazer. Mas ele dava-me aquilo que eu nunca tive – o amor de um pai.»
O Miguel foi abandonado pelos pais aos três meses de idade. Mais tarde soube que a mãe vendia o corpo para sobreviver e que pai havia falecido com uma overdose.
Depois de ter passado por diversas instituições, escolheu a rua como casa para viver. Aos 19 anos começou a roubar para pagar o consumo de substâncias, que atenuavam as memórias vivas de um passado que nunca vai conseguir apagar.
Hoje cumpre uma pena de dez anos, no estabelecimento prisional do Funchal.
*
Mas afinal, o que é a delinquência? E porque é que os significados jurídico-legal e psicológicos desta definição, permanecem inaudíveis na sociedade actual?
O Miguel cresceu sem o amor materno. Será que este factor preponderou o desenvolvimento da sua conduta posterior?
A qualidade da relação maternal estabelecida na primeira infância surge como um dos elementos que torna possível o reconhecimento de determinados sintomas, na criança ou adolescente.
Os estudos psicanalíticos mostram a importância do papel da mãe junto do recém-nascido. As consequências inerentes a uma carência maternal, durante a primeira infância, são consideradas como causas remotas, responsáveis pelas perturbações de comportamento do adolescente. Relativamente aos estudos que destacam o papel do pai, denota-se uma valorização da sua opinião, sendo que os movimentos de autonomização do jovem estão, não raras vezes, associados à procura da sua própria autonomia.
De acordo com uma perspectiva psicopatológica, a compreensão do comportamento delinquente remete para a compreensão de uma adolescência marcada por perturbações e inadaptações transitórias, sendo que, a sua ausência poderá estar na génese de um prognóstico desfavorável para o equilíbrio futuro da personalidade.
*
Sonhar e conceber crianças na Terra do Nunca é fácil.
Mas, e quando essas crianças querem ser libertadas do isolamento, para recuperar uma infância perdida?
O que há por detrás de todo este silêncio?
Será preciso levar mães a esta terra do nunca para trazer de lá filhos?