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sexta-feira, 16 de março de 2012

Valor (de) Verdade

«Procuro despir-me do que aprendi | Procuro esquecer-me do modo de me lembrar que me ensinaram | E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, | Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, | Desembrulhar-me e ser eu»
Alberto Caeiro
Nove anos depois, voltou a ouvir o som dos bombardeamentos.
De olhos postos no reflexo de um espelho antigo, foi impossível interromper a fluidez de um passado aparentemente ultrapassado. Recordou as vozes dos soldados; a dimensão dos seus passos; o medo que sentiu ao ver a própria vida presa por um fio; os murmúrios nervosos e ambíguos, de quem defendia o seu país, sem nunca esquecer quem nele tinha deixado.
De olhos fechados lutou. Mais uma vez. Sem saber muito bem o porquê de o fazer. Tinha plena consciência de que aquelas imagens eram parte integrante da sua própria identidade. Uma identidade complexa, fruto de uma (re)construção permanente e, claramente, condicionada pelos esquemas de pensamento e de acção de um passado inevitavelmente interiorizado.
Interpretar a coexistência de uma realidade com os enclaves da percepção na qual se aventurou, foi o desafio ao qual se propôs.


*
Relatar mundos de significação teóricos, estéticos ou religiosos é uma tarefa cada vez mais complicada, principalmente para quem procura descrever a realidade com rigor, ou até para quem continua a acreditar que o conceito de “valor” existe ontologicamente, quando a sua existência é apenas fenomenológica.

Os alicerces do conhecimento, na vida quotidiana, são frágeis e o conceito de “verdade”, neste contexto, é cada vez mais vago. Para Jurgen Habermas, por exemplo, “o conhecimento verdadeiro só é possível em relação às condições transcendentais da representação simbólica, e já não em relação ao que é representado” [1] (Habermas, 1998, p.7).

Transferir o estatuto da verdade, do ontológico para o discursivo, evidencia a sua inacessibilidade, de forma directa, ainda que ele continue a existir através do texto. Trata-se de um estatuto de verdade construído pelo sujeito, e expresso através do discurso estruturante da concepção do real. Uma concepção, cujo carácter puramente arbitrário e convencional, permanece intrinsecamente associado, à visão que cada um tem do universo.
Mas afinal, qual o verdadeiro sentido das palavras? 
Que “valor de verdade” legitima o domínio impreciso da subjectividade?
*
«No mundo, tudo é como é, e acontece como acontece. Dentro dele não há valores, e se houvesse, seriam não valores»[2]
(Wittgenstein, 1922, p.183)


[1] Habermas, Jurgen. (1998). «On the logic of the social sciences», Cambridge, Polity Press
[2] Wittgenstein, Ludwig. (1922), «Tractatus Logico-Philosophicus», Londres, Trubner & Co.

domingo, 4 de março de 2012

Entre Lados


No palco as coisas que se mostram são simuladas; na vida, provavelmente, as coisas que surgem são reais e nem sempre foram bem ensaiadas. 
(Goffman, 1993, p. 9)[1]



[1] Goffman, Erving. (1993) «A apresentação do Eu na vida de todos os dias», Lisboa, Relógio d’Água Editores.

Confusão. Era tudo o que sentia. Por mais que se empenhasse em emergir de um mundo que não era o dele, a voz do impulso conseguia ser sempre mais forte. Mostrava-se nu diante de uma realidade aleatória que, no fundo, não conhecia.
Naquela noite mergulhou na própria sombra. Vagueou na pele de uma ‘terceira pessoa’ e questionou cada gesto, cada palavra, cada expressão.
Era tudo tão vazio.
*
A evidência de que o papel social do indivíduo não se impõe do “exterior”, mas resulta de uma progressiva adaptação, no decurso da qual ele participa de uma forma activa, confirma o fenómeno proposto por Erving Goffman, ao longo da Obra «A apresentação do Eu na vida de todos os dias». O maior interesse da analogia estabelecida pelo autor, relativamente à análise dramatúrgica da vida social, reside na forma como dois indivíduos, em situações concretas, ajustam os seus comportamentos, em função das suas expectativas recíprocas.
Neste sentido, a grande questão que se impõe ao longo da Apresentação do Eu na vida de todos os dias, prende-se com a necessidade de tentar perceber de que forma é que os indivíduos desempenham e redefinem constantemente, um determinado papel social, em cada contexto de interacção, ao invés de se limitarem a uma representação meramente mecânica. Ainda que, em determinadas situações, os indivíduos possam assumir um certo distanciamento relativamente a um qualquer papel social, na realidade, o seu desempenho nunca é completamente ‘inocente’.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Que Sentido de Objectividade?

“Um texto, uma vez separado do seu autor e das circunstâncias concretas da sua enunciação, flutua no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis”. (Eco, 1992, p.41)[1]


[1] Eco,Umberto. (1992) Interpretation and Overinterpretation, 1ª ed. Cambridge, Cambridge University Press.


De que forma é que a reconstrução discursiva do real poderá ser objectiva, subjectiva, ou até, intersubjectiva?

A ideia de que não existe um sentido preciso na análise de qualquer texto, e de que as palavras denotam significados diferentes para quem as lê ou ouve, foi uma temática desenvolvida no que diz respeito ao estudo sobre o discurso. A certeza de que a linguagem tem uma estrutura específica e de que o estabelecimento do seu real valor depende da relação existente entre as palavras e a sua estrutura, foi um dos conceitos introduzidos por Ferdinand Saussure, na sua Obra Cours de Linguistique Générale:

“A língua é um sistema no qual todos os termos são solidários e o valor de cada um só resulta quando na presença simultânea dos outros.” (Saussure, 1995, p.159)[1]

A evidente incapacidade das palavras em expressarem o real e o duplo significado, que cada pontuação ou expressão podem ter, em virtude da forma como são percepcionados por culturas distintas, mostra que o apelo a um jornalismo objectivo já não faz sentido, quando se visa fazer acreditar que os factos falam por si, e que os jornalistas se limitam ao seu relato de uma forma imparcial, quando isso, na realidade, não acontece.
Em 1948, David Krech e Richard Crutchfield estabeleceram o conceito de que a percepção é funcionalmente selectiva e que a apreensão das manifestações do real está sujeita a um elevado grau de distorção:

“Ninguém capta tudo o que existe ‘lá fora’ (…) as pessoas organizam cognitivamente a percepção em função de determinados estímulos, que incluem as suas necessidades, o seu estado de espírito, e a sua cultura.” (Kretch e Crutchfield, 1977, p.242)[2]

Ainda que pareça claro, que a percepção de cada indivíduo, influencia directamente a sua forma de apreender o real, é interessante pensar no princípio que fundamenta a ideia de objectividade, o qual advoga que a separação dos factos dos valores, e as informações das opiniões, constitui o percurso certo para chegar à verdade e à descrição dos acontecimentos de uma forma distanciada. No entanto, se por um lado o distanciamento e a imparcialidade, característicos da objectividade jornalística, poderão servir como forma de credibilizar uma qualquer componente discursiva, a verdade é que também a falta de rigor inerente às estruturas discursivas tem a sua origem no carácter arbitrário e convencional da língua. 


Para Émile Benveniste, por exemplo, “o fundamento da subjectividade está no exercício da língua”, sendo que, “é na linguagem que o homem se constitui como sujeito, porque só a linguagem funda a realidade, na sua realidade que é a do ser” (Benveniste, 1973, p. 259-262).[3]


Afinal, que moral de objectividade? Qual o 'verdadeiro chão' da realidade?


[1] Saussure, Ferdinand. (1995) Cours de Linguistique Générale, 4ªed. Paris, Éditions Payot & Rivages.
[2] Kretch, David e Crutchfield, Richard. (1977) «Perceiveing the World» in Wilbur Schramm e Donald Roberts, The Process and Effects of Mass Communication, Urbana, Illinois University Press.
[3] Benveniste, Émile. (1973) Problèmes de Linguistique Générale. 1ªed. Paris, Éditions Gallimand.