terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sons | Cheiros Lá dentro

O cheiro da escola era exactamente o mesmo.
A disposição das salas permaneceu inalterada. O chão de madeira carecia de remodelação e o corrimão verde-limão estava hoje quase sem cor.
Cuidadosamente, entrou num espaço que frequentou durante quatro anos.
Dentro daquela sala de aula, por cima do quadro de giz, permanecia o mesmo crucifixo. Deteve-se por instantes.
Religião e Moral. Na altura, o assunto era quase indiscutível. Ousar pensar, ousar questionar, não era um hábito para quem não pretendia dar a mão à palmatória.
Para além disso, a ideologia veiculada parecia fazer sentido. Só mais tarde percebeu as lacunas, de uma doutrina marcadamente amoral, cujo limite da legitimidade abraçava o passado de um homem que só não falhou, para quem não quis ver as suas falhas.
Aproximou-se da janela. Deixou-se levar ao som do vento, que beijava as árvores lá fora. Sentiu-se inquieta, à semelhança das folhas caducas, pintadas de um amarelo-torrado frágil.
Num movimento ligeiro, voltou a fixar o olhar nas carteiras de madeira escura.
As memórias surgiram em turbilhão.
De repente, voltou a ser a menina de outrora. Frágil. Dramaticamente obediente. Aterrada.
Lembrou a tensão perante os gritos em surdina, por parte da Professora Catarina; o entusiasmo ao perceber a “Língua Portuguesa” como tema de um Sumário minuciosamente descrito; o estratagema que inventava para não ir ao quadro resolver problemas de Matemática; os trinta minutos de um recreio passado a jogar às escondidas; os gestos preocupados da Josélia, uma funcionária sempre disponível para um abraço descomprometido.

Maré Vaza



Num sopro. Voltou a ter sete anos de idade.
As manhãs sempre foram dramáticas. Acordar tornava-se particularmente problemático, quando o que estava em causa era a interrupção de um sonho.
“Vá lá Isabel, já são horas… Não me faças perder a paciência!”
Sabia que a mãe fervia em pouca água. Insistir em permanecer deitada só ia piorar a situação. Espreguiçou-se ao comprido, na cama de casal, e encontrou forças para abandonar os lençóis.
A indumentária do dia já havia sido escolhida. A mãe adorava fazê-lo, mesmo depois de prever as discussões que poderia desencadear.
“Mãe, posso escolher a roupa para vestir hoje?” – perguntou acanhada.
“Tens cinco minutos!” – o tom de voz foi ríspido, mas percebeu-lhe o sorriso de soslaio.
De calças vermelhas, camisola amarela e gorro azul na cabeça, não podia estar mais confiante. Podia não ser a combinação perfeita, mas e depois?
A despreocupação de criança, rasgava em mil pedaços os preconceitos gastos, que povoam as mentalidades dos meninos crescidos. Vivia. Ao sabor da maré vaza.

Mãe do Canto

Mãe do Canto.
Conheceu o mundo a preto e branco e assistiu à evolução das mentalidades. Uma nova postura perante a vida se adivinhava, e ainda bem que assim o era.
Recorda as restrições que teve ao longo da adolescência. A rigidez das regras impostas pelos pais; os preceitos religiosos que respeitava meticulosamente, sem sequer se perguntar sobre o porquê de o fazer;  a voz estridente e claramente indignada de uma mãe que só queria o seu bem, mas que insistia em mostrar-lhe o lado indecente de um beijo; as promessas vazias de um sentimento que nunca conheceu.
Viveu durante grande parte da sua vida para cuidar da família. Foi mãe de três filhos que criou sozinha e a quem deu tudo o que tinha, e o que não tinha.
Os anos passaram.
Os filhos cresceram e foram forçados a sair do país. Um país que os enganou com promessas fáceis e que lhes roubou o chão.
Deixaram a Mãe. Naquele Canto. Aparecem esporadicamente, mas nunca para ficar. Abraçaram um país que lhes deu a vida com que sempre sonharam e compreendia bem isso.
Se pudesse tinha feito o mesmo. Agora já é tarde.
*
Olha para mim. Deixa voar os sonhos e só depois consegue dizer:
"Já não sei viver de outra maneira. O Natal é mais um dia. Sim, já teve sentido. Mas sempre foi o sentido errado."

sábado, 26 de novembro de 2011

“Que seja um bom Natal, para todos nós”


Parecia irónico. Nunca suportei aquela música mas naquele momento fez sentido.

Voltei a olhar para ela. As mãos enrugadas extraíam os poucos tostões que restavam na carteira azul petróleo. Suspirou. Retirou um volume de talões do Continente, cuidadosamente arquivados. Nas costas de um desses talões, começou a escrever. As mãos tremiam.
Não tinha pressa. Vivia sozinha. Daí não reagir bem a ruídos fortes. Respeitava o seu silêncio. Protegia-o.
Rumorejou entre dentes qualquer coisa que não consegui precisar. Depois descansou o olhar em mim e disse: «Este ano não há Natal».
Não lhe senti tristeza no olhar, nem queixume na voz. Estava claramente resignada, por um motivo que agora sei bem qual foi.

De Passagem

Uma tarde confusa. Nos dias de jogo aquela zona era particularmente caótica. «Benfica!» - Gritava um grupo de jovens, escrupulosamente vestido: cachecol encarnado ao pescoço, gorro na cabeça, sorriso estampado no rosto e, como não podia deixar de ser, acompanhados pela loirinha da praxe.
Entrei no café. No canto mais discreto do espaço, lá estava ela: mergulhada em roupas largas e pouco cuidadas. Os olhos postos num naco de pão, que devorava como se não existisse amanhã.
Acena com um gesto de reprovação, depois dos gritos dos entusiastas vindos da loja ao lado. «Nunca gostei de Futebol. Não era agora, depois de velha, que ia gostar», desabafou. Sentiu-se observada. Olhou para mim e perguntou: «a menina gosta?»
Sorri. Apesar da idade, conservava uns olhos grandes, pintados de um verde que já não existe. Um verde que esconde décadas de memórias que pertencem ao passado. Memórias que ficaram longe de tudo o que hoje está perto.
Acenei em jeito de reprovação. Nunca gostei de futebol. Nunca fui capaz de sentir a mínima frustração pela perda de um jogo, por parte do clube “venerado” pela família. Passou-me sempre ao lado. Ainda que me divertisse imenso perante a indignação do meu irmão (fanático pelo Benfica), e a aparente indiferença do meu pai (um espectador passivo e que facilmente “virava a página”).

Mais tarde percebi, que esse tipo de comportamento reflectia a pragmaticidade com que agia perante tudo na vida.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Terra do Nunca

Voar. Um desejo ou um medo dificilmente identificável?

«Pensa em coisas boas», lembrava o Peter Pan. Todas as noites era a mesma história. A mesma voz que o tranquilizava. Os traumas de uma infância adiada permaneciam no baú das memórias difíceis de evocar. Mas não havia muito a fazer. O mal já estava feito. Restava-lhe esperar que o amanhã chegasse.
À luz do dia “o tudo” parecia sempre mais suportável, ainda que absorto nas sombras de um trajecto de vida irreversível.
*
De olhos postos no chão, o Miguel contava parte da história que ainda hoje o acompanha. A voz embargada, abria uma ferida latente e evidenciava uma dor difícil de esconder.
Na maioria das vezes, preferia jogar ao “faz de conta” e trancar os fantasmas a sete chaves. Como se nada tivesse acontecido. Mas eles voltavam. Sempre.
«Tinha dez anos na altura. Não sabia sequer o que estava a fazer. Mas ele dava-me aquilo que eu nunca tive – o amor de um pai.»
O Miguel foi abandonado pelos pais aos três meses de idade. Mais tarde soube que a mãe vendia o corpo para sobreviver e que pai havia falecido com uma overdose.
Depois de ter passado por diversas instituições, escolheu a rua como casa para viver. Aos 19 anos começou a roubar para pagar o consumo de substâncias, que atenuavam as memórias vivas de um passado que nunca vai conseguir apagar.
Hoje cumpre uma pena de dez anos, no estabelecimento prisional do Funchal.
*
Mas afinal, o que é a delinquência? E porque é que os significados jurídico-legal e psicológicos desta definição, permanecem inaudíveis na sociedade actual?
O Miguel cresceu sem o amor materno. Será que este factor preponderou o desenvolvimento da sua conduta posterior?
A qualidade da relação maternal estabelecida na primeira infância surge como um dos elementos que torna possível o reconhecimento de determinados sintomas, na criança ou adolescente.
Os estudos psicanalíticos mostram a importância do papel da mãe junto do recém-nascido. As consequências inerentes a uma carência maternal, durante a primeira infância, são consideradas como causas remotas, responsáveis pelas perturbações de comportamento do adolescente. Relativamente aos estudos que destacam o papel do pai, denota-se uma valorização da sua opinião, sendo que os movimentos de autonomização do jovem estão, não raras vezes, associados à procura da sua própria autonomia.
De acordo com uma perspectiva psicopatológica, a compreensão do comportamento delinquente remete para a compreensão de uma adolescência marcada por perturbações e inadaptações transitórias, sendo que, a sua ausência poderá estar na génese de um prognóstico desfavorável para o equilíbrio futuro da personalidade.
*
Sonhar e conceber crianças na Terra do Nunca é fácil.
Mas, e quando essas crianças querem ser libertadas do isolamento, para recuperar uma infância perdida?
O que há por detrás de todo este silêncio?
Será preciso levar mães a esta terra do nunca para trazer de lá filhos?


domingo, 30 de outubro de 2011

"A Guerra dos Mundos"

MRS. DELANEY, dos subúrbios de Nova York: - “Segurava um crucifixo e olhava pela janela, à espera de ver cair meteoros..."
MRS. JOSLIN, de uma cidade do leste: "Quando o locutor disse - Abandonem a cidade! - agarrei no meu filho e precipitei-me, pela escada abaixo”
*
30 De Outubro de 1938,
Já devia estar habituada às típicas temperaturas de Outubro. Mas, naquela noite, o frio estava particularmente insuportável.
Lá fora, as árvores já não reagiam aos rumores do vento. Permaneciam incólumes, como se não quisessem responder a provocações. O vento detestava ser desprezado. Por isso voava pelas ruas mais sombrias da cidade, à procura de uns minutos de atenção e convicto de que o silêncio era um mero ruído de fundo, sem qualquer proficuidade.


As pessoas tinham medo. Não apenas dele, mas dos sons da noite. Das vozes anónimas e intemporais que o negrume do céu nunca quis esconder.
Em Nova York faltavam cinco minutos para as 20 horas. Conseguia ouvir a mãe a chamá-la para mais uma emissão radiofónica, na voz do célebre locutor Orson Welles.
Nunca lhe achou muita piada. A típica entoação fictícia, que insistia em fazer transparecer e a ordenação lógica de um discurso, previamente construído, não a convencia. A uniformidade não era, definitivamente, uma característica evidente, num mundo em que as palavras estão a poucos segundos de serem convertidas em vazio constrangedor.
Naquela noite, foi diferente.
*
Welles: "Sabemos que desde os primeiros anos do século XX o nosso mundo é observado meticulosamente por inteligências superiores às do homem, mas tão mortais quanto as dele. Com infinita complacência, o povo andou de um lado para outro sobre a Terra, na segurança do domínio que exerce sobre esse pequeno fragmento solar rodopiante que, por sorte ou desígnio, o homem herdou do negro mistério do tempo e do espaço. Entretanto, através do imenso e etéreo abismo, mentes que estão para as nossas, como estas estão para as dos animais selvagens, intelectos vastos mas frios e sem compaixão, contemplavam esta Terra com olhos cobiçosos, e fizeram planos contra nós".
"Senhoras e senhores" - dizia o locutor, num dos comunicados - "tenho uma grave declaração a fazer. (...) Sete mil homens armados com rifles e metralhadoras enfrentaram uma única máquina invasora de Marte. Apenas 120 sobreviveram. Os outros jazem na área da batalha."
Seguem-se relatos de novas batalhas, até o intervalo, quando o locutor informa:
"Estão a ouvir uma apresentação da CBS do Mercury Theatre de Orson Welles, numa dramatização de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells. O programa continuará após um breve intervalo. Aqui fala a Columbia Broadcasting System.."
*
Estava positivamente surpreendida com a emissão daquela noite. Muito provavelmente, Orson Welles percebeu algumas das suas falhas, e decidiu dar um tom "mais real" ao seu discurso. Aliás, a julgar pela agitação que eclodiu repentinamente na rua, talvez arrisque em dizer que o realismo que Orson Welles imprimiu na emissão daquela noite, foi desmesuradamente inconsequente.
O pânico estava instalado e provocou não só acidentes em série, mas também prejuízos e suicídios. O abandono imediato das habitações e a fuga da cidade, foram duas das reacções da sociedade norte-americana.
Ao que parece, 50% dos ouvintes não percebeu que a emissão estava a ser teatralizada, pela voz surpreendentemente credível de Welles e, parte considerável do público, acreditou que a Terra estava a ser invadida por marcianos.
*
"Aqui fala Orson Welles desprendido da personagem à qual deu voz, para vos assegurar que 'A Guerra dos Mundos' teve como principal objectivo oferecer-vos um bom divertimento para Domingo. (...) De modo que, adeus a todos e lembrem-se, amanhã e depois, da terrível lição que receberam esta noite. Este sorridente e globular invasor da sua sala de estar, é um habitante do país das abóboras. Se baterem à sua porta e não houver ninguém lá, não é nenhum marciano... É Halloween!"
*
Há quem diga que o peso das palavras não se compara ao choque provocado pelas imagens.
Embora reconheça que há casos pontuais, em que as imagens valem por si, não posso deixar de considerar a evidente componente sinestésica associada ao discurso oral. A criatividade e a imaginação não só de quem fala, mas também de quem ouve, produzem efeitos absolutamente estrondosos, capazes de deturpar a realidade dos factos.
O caso da Guerra dos Mundos foi apenas um exemplo disso, e parece estar bem presente quando nos referimos ao reflexo subliminar que o som consegue provocar, através do realismo de uma narração dramatizada, em que o poder da palavra invisível é praticamente inquestionável.



Orson Welles - Cineasta, produtor e actor.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pode o homem resumir-se ao grito?

Já não sobram segundos para prestar atenção à simplicidade dos gestos, num mundo em que a maioria das pessoas mergulha num estado de dormência permanente, no qual a consciência moral não é mais do que um produto descartável, responsável por converter gritos de dor, em mero silêncio.

Ok…nada de novo.
Aliás, todos nós já passámos por situações em que a indiferença foi a melhor opção que encontrámos, ainda que não fosse a mais correcta. Desligar do mundo pode não ser a melhor alternativa, mas é, na maior parte das vezes, aquela que nos permite reorganizar as ideias. Respirar.
O único problema é que, permanecer em off durante muito tempo, pode não dar bom resultado.
Arrisco em dizer, que o off a que nos permitimos, tantas vezes, deve ser mediano, sem deixar de admitir um despertar repentino para a realidade.
Ainda que possa existir uma espécie de “colisão inicial”, pior do que isso, é a dor que a consciência de cada um pode provocar, ao perceber que, a realidade de outrem esteve a um passo de ser invertida.
Hoje ouvi um grito. Um grito bem ao longe. Não restavam dúvidas. Era um "grito em silêncio". A voz de uma menina de dois anos, que gritava para viver.
Ninguém a ouviu. Durante sete minutos. Depois de ter sido atropelada duas vezes, passaram por ela cerca de uma dúzia de pessoas, que reagiram com a indiferença de quem passa por qualquer coisa que não podia estar noutro lugar, nem podia ser de outra maneira.
A apatia de uma reacção, claramente inconsciente, reflectiu-se no desenrolar de um acontecimento, que hoje põe em causa a moralidade das pessoas que o ignoraram.
Esta menina já não mostra a mesma expressão na voz, mas o seu grito continua a ecoar no vazio da consciência humana.
Chama-se Wang Weue, e morreu hoje no hospital militar de Guangzhou, na China, uma semana depois de ter sido atropelada por dois veículos num mercado em Foshan.
Há quem conteste a moralidade chinesa e há também quem recorde situações transactas que fundamentam o actual lado menos solidário da sociedade oriental.
Confesso que não sei se esta indiferença poderá estar na base dos dois aspectos acima enunciados. Aliás, quer-me parecer que o grande problema reside sim, na imutabilidade da natureza humana.
E, neste caso, talvez me sinta forçada a concordar com Nicolau Maquiavel, quando afirmou que a natureza humana é, inevitavelmente, má e movida por um egoísmo exacerbado, através do qual não é possível esperar que os homens ajam, de acordo com aquilo que se espera deles.
“Mesmo as leis mais bem ordenadas, são impotentes diante dos costumes”
Nicolau Maquiavel

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"A Rádio tem que ser Real"

A rádio nem sempre esteve nos seus planos e a informação nunca foi o seu forte. Em contrapartida, a boa dose de criatividade que o caracteriza e a paixão por tudo aquilo que envolve o som, são dois dos motivos que justificam o facto de não conceber o desempenho de outra profissão, que não esta.

Vasco Palmeirim é animador e produtor de rádio há quase dez anos, e faz parte da equipa da Rádio Comercial desde o ano de 2007.
Apaixonado pelo mundo do som, sem o qual não se imagina, Vasco expõe alguns dos momentos que viveu, enquanto profissional, sem deixar de definir os principais motivos que o fazem permanecer na Rádio Comercial.

A timidez que marcou parte da sua infância, foi uma barreira que facilmente ultrapassou, quando descobriu a paixão pela actividade humorística. Também nesta fase da sua vida, Vasco faz questão de referir alguns dos episódios que, ainda hoje, recorda com nostalgia.

A boa disposição e a espontaneidade que o caracterizam, ajudam a decifrar a forma como encara a magia da rádio, sem deixar de clarificar os princípios que o permitem "chegar" aos ouvintes.
Com trinta e dois anos, Vasco Palmeirim confirma a existência de vários projectos que pretende concretizar, sendo que, abandonar o mundo da rádio, não é um deles.

Para ouvir o suporte áudio desta entrevista, clique
aqui

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Homem da Bengala Branca


Um dia normal. As mesmas vozes, os mesmos gestos, as mesmas cores, numa paisagem incrivelmente assustadora e marcada por comportamentos previsíveis aos quais parece ser difícil renunciar.
 Os olhares distantes reflectiam uma indiferença à qual já devia estar habituada.
“Take care of your belongings. Pay special attention when entering or leaving the train”.
Entrei no metro. Não havia sorrisos. Só pessoas ensimesmadas nos seus próprios pensamentos. Ao longe ecoava uma voz. Uma voz grave e rouca de um alguém qualquer, que aspirava por uma resposta anónima. “Vá lá, não é difícil. Afinal, que diferença faz uma moeda a menos na carteira de cada um?” A julgar pelo número de vezes que já o tinha ouvido, calculo que pensasse algo do género.
Ele e tantos outros que por ali passavam, com uma bengala branca, metade de uma garrafa de plástico com umas quantas moedas no fundo e um pedido informal, formatado para um fim específico.
Na maioria das vezes, a reacção consensual passava por uma atitude de desprezo que, confesso, sempre me causou um certo desconforto. Mais tarde percebi que não restavam grandes alternativas e que era difícil agir de outra maneira.
Curiosamente, hoje foi diferente. As pessoas pareciam estranhamente solidárias e o homem da bengala branca não poupava esforços na voz para fazer valer a sua causa. Mas que causa será esta? A sobrevivência? Se assim for, é nosso dever suportar os custos que essa causa implica?
Por sinal, tinha a meu lado um senhor que, muito provavelmente devia ser dotado de um qualquer “poder da mente”, que nunca vou saber precisar. A verdade é que o seu sentido de oportunidade foi inquestionável e as oito palavras que me dirigiu foram, no mínimo, certeiras:
O pior cego é aquele que não quer ver.
Não soube bem que sentido dar ao habitual cliché que estava cansada de ouvir e fiquei sem perceber, se devia atribuir a toda esta situação uma componente emocional, ou limitar-me ao relato de um episódio, que poderia provocar admiração numa escala puramente intelectual.
Lembro-me que, na altura, respondi com o típico compasso de silêncio. Não havia muito a dizer. Aliás, a minha expressão facial já era, por si, reveladora.
Não sabia o que pensar. Nem sabia se a ausência de um gesto poderia ser definida como correcta ou incorrecta. Afinal, o que é o certo e o errado? Ok: já sei que fomos nós (seres humanos) que definimos isso. Mas como podemos estar tão presunçosamente confiantes de que essa foi a melhor opção?
Mais uma vez, não tenho resposta para as questões que fiz.
À parte isso, é um facto que os indivíduos portadores de cegueira, são diariamente confrontados com determinadas limitações que reivindicam a existência de meios que os auxiliem. O problema é que, actualmente, essa ajuda ainda não foi devidamente desenvolvida.
O homem da bengala branca foi apenas um dos casos que decidi expôr aqui. Mas há vários.
Os recursos que a sociedade dispõe são mínimos e as pessoas que possuem esta incapacidade, nunca conseguem ser verdadeiramente independentes.
Atentemos, por exemplo, no facto de um cego querer ir a um supermercado. Distinguir um pacote de bolachas de morango de um de chocolate, é uma tarefa fácil para qualquer um de nós. Mas para um cego: se os dois pacotes não estiverem escritos em Braille, essa diferenciação será completamente impossível. O mesmo se aplica aos cartazes informativos, à existência de semáforos que não estão devidamente sonorizados, às informações expostas em placas, com os nomes das ruas, etc.
Reconheço que a incapacidade sensorial, que caracteriza todo o tipo de pessoas com deficiência visual, deve ser lembrada e não esquecida pela sociedade. Afinal, falamos de pessoas que partilham os mesmos direitos e deveres que qualquer um de nós (independentemente da relatividade subjacente aos conceitos de “direito” e de “dever”).
Será que o Estado decidiu fechar os olhos ao branco das bengalas para dar voz à frase: “O pior cego é aquele que não quer ver?”

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Eu Vivo para Ouvir"

O Valor da Vida Animal foi a primeira publicação que fiz neste blog e talvez tenha sido um dos temas mais interessantes que explorei até hoje.
O porquê de o ter feito? Bem, nos últimos tempos percebi que há diversas bioacústicas que caracterizam a paisagem sonora. Essas acústicas não se restringem apenas aos animais humanos, mas também aos animais não humanos. Embora reconheça que o aprofundamento deste tipo de questões ainda se encontra numa fase claramente primitiva acredito que, actualmente, há uma preocupação cada vez mais evidente quanto à inserção de uma consciência relativa à preservação do direito animal, ainda que, na prática, nem sempre se verifique a sua real aplicabilidade. 
Hoje pensei em dar um salto para outro plano, não menos relevante, que sintetiza a capacidade sonora do ser humano em cinco contextos distintos.
Há pouco tempo tive a oportunidade de ver a TED talk de Julian Treasure, que assegura uma perspectiva singular relativamente à comunicação sonora e à importância da compreensão oral como plataforma para o conhecimento. Dois horizontes que me parecem emergentes, talvez pelo facto de a maioria das pessoas os ignorarem por completo.
“Five Ways to Listen Better” foi o mote da apresentação de Julian Treasure, autor do Livro Sound Business e fundador da empresa The Sound Agency, uma agência de som que pretende ajudar os seus clientes a alcançarem melhores resultados nos seus negócios, através da utilização intencional e apropriada do som.
“We are losing our listening”
Para Julian Treasure, “a recompensa por uma audição precisa e cuidadosa simplesmente desapareceu”. A poluição sonora que caracteriza os espaços que habitualmente frequentamos é cansativa, principalmente por não permitir que prestemos atenção a uma gama de filtros sonoros, responsáveis pela condução de uma imensidão de sons até aos que efectivamente prestamos atenção.
Num mundo em que a sensibilidade passa para segundo plano, a impaciência passou de opção a evidência, quando confrontada com a impossibilidade de privilegiar tudo aquilo que é subtil, pacato e discreto.
“Um mundo no qual não nos ouvimos uns aos outros é, de facto, um mundo assustador.”
Mas como contornar isso se, segundo o próprio Julian, o ser humano apenas retém 25% de tudo aquilo que ouve?
Ok…até posso concordar com o facto de a “audição consciente” ser uma espécie de plataforma para a compreensão. Mas será que isso, por si só, é suficiente? Esta é uma questão para a qual não tenho resposta, talvez por considerar que a compreensão mútua não existe, inserida no seio de uma sociedade dominada por um conjunto de interesses aos quais não pode, nem consegue renunciar.
A justificação da audição, enquanto caminho para o entendimento, parece-me ser uma visão demasiadamente simplista da realidade e que prefere ocultar as razões efectivas que fundamentam a ausência uma compreensão recíproca, que deveria existir com ou sem a existência de som.
Ainda assim, aqui fica uma breve síntese dos cinco exercícios para ouvir melhor, sugeridos através da TED talk de Julian Treasure:
1.      SilêncioApenas três minutos de silêncio por dia. Um exercício para reajustar os ouvidos de forma a possibilitar a audição de silêncio novamente.
2.       Batedeira – Mesmo que se encontrem num ambiente barulhento, tentem estar no café e ouvir quantas frequências de som individuais conseguem percepcionar.
3.      Saborear – Apreciar sons comuns. Os sons banais podem ser muito interessantes se prestarem atenção.
4.      Posturas auditivas – Brincar com os filtros de som para que possamos tomar consciência da sua presença e procurar outro sítio apropriado à audição de cada um.
5.      Acróstico – Passível de ser utilizado na comunicação auditiva:
Receive – Prestar atenção ao interlocutor.
Apreciate – Fazer pequenos ruídos (‘pois’, ‘ah’, ‘ok’).
Summarise – Utilizar a palavra ‘então’ (considerada relevante em qualquer comunicação).
Ask – Fazer questões no fim do diálogo.

“Eu acredito que cada ser humano precisa de ouvir conscientemente para viver uma vida plena – interligado no espaço e no tempo, com o mundo físico à sua volta, conectado com o outro, sem mencionar a ligação espiritual, porque todos os caminhos espirituais que conheço têm a audição e a contemplação na sua essência.”
Julian Treasure

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Valor da Vida Animal *

“Os seres cuja existência depende (…) da natureza, têm contudo, se são seres irracionais, apenas um valor relativo como meios e por isso se chamam coisas, ao passo que os seres racionais se chamam pessoas, porque a sua natureza os distingue já como fins em si mesmos” *



Mas o que significa a expressão “fim em si mesmo”? Para Kant, o homem surge como um ser insubstituível e que tem uma espécie de “valor intrínseco”. Podemos perceber, na teoria kantiana, a distinção das coisas que têm valor absoluto ou incondicional, isto é, as coisas que são boas em si mesmas, independentemente de todas as condições, das coisas que têm valor condicional, isto é, coisas cuja bondade depende de condições externas. De acordo com Kant, a única coisa boa que possui valor absoluto é a boa vontade.
“Tudo na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade de agir segundo a representação de leis, isto é, segundo princípios, ou: só ele tem uma vontade.”*

A alusão ao substantivo “coisas” para caracterizar todo o animal desprovido de razão, bem como a ideia de valor absoluto, inerente ao animal humano parecem evidentes para Kant. Mas, o que é o valor? Porque é que os animais, quer sejam humanos ou não humanos, têm que valer alguma coisa? É uma questão de dignidade? Se assim for, porquê excluir os animais não humanos da esfera de consideração moral, a que os animais humanos têm direito?
Embora algumas destas questões permaneçam sem resposta, o Presidente do PAN (Partido pelos Animais e pela Natureza), Paulo Borges, confessa que a vida não depende da interpretação que fazemos dela e que a existência de valores intrínsecos reside na certeza da existência de 'uma vida' .
Através de uma entrevista integrada em formato de reportagem, Paulo Borges, expõe a sua perspectiva relativamente às questões propostas, sem deixar de enfatizar os principais princípios que estruturam a visão que o PAN tem, no que diz respeito aos direitos dos animais, da natureza e do meio ambiente.
Para ouvir a reportagem sobre este tema, clique aqui .
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*1 - KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Lisboa. Edições 70, 1986.

*2 - Devo um agradecimento especial ao professor David G. Santos: o professor que me ensinou a pensar sobre algumas das temáticas expostas, e sem o qual não teria sido possível a realização desta reportagem.