quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Olhar (N) a Sombra

O olhar era trémulo. Desarmado. Oscilava entre o vazio e o retrato das fisionomias irregulares que o rodeavam.
Deixou o cansaço trancado em casa e partilhou na Pickpocket Gallery o segredo do seu olhar. Um olhar que desmonta expressões corporais, e que constrói interpretações espontâneas de um universo fotográfico singular.
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Cláudio Ferreira tem 37 anos e traz o poder do olhar, na sombra corporal de um Alguém em permanente contacto com a tecnologia.
Num envolvimento intenso com todo o making off, da segunda edição do Festival In Shadow, Cláudio criou atmosferas marcadamente densas em que a presença da tecnologia foi imprescindível.
As imagens em exposição, na Pickpocket Gallery, retratam sensibilidades que procuram uma liberdade provisória, no rasto de uma luz que se pode tocar.
Sem nunca descurar o corpo como pilar edificador de espaços desiguais, Cláudio Ferreira assinou um contrato a termo incerto com o tempo, e congelou cada instante decisivo nos espectáculos, que integraram a segunda edição do Festival In Shadow.
O contacto com pessoas interessantes e a possibilidade de usufruir de uma aprendizagem singular, foram duas das retribuições, que hoje recorda através da sua participação, na terceira edição deste Festival.
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Mergulha fundo, na sombra de um universo complexo. O olhar tímido perde-se na multidão de gestos incertos.
Cláudio Ferreira tem uma voz grave, e acompanha os movimentos concordantes de duas mãos, que pretendem complementar o significado de cada palavra falada.
As imagens fortes que captou, pertencem a um registo distinto ao qual não conseguiu fugir quando desafiado pela força de um olhar propositado.
Viver sem a imagem está fora dos seus planos. O seu caminho passa pelo envolvimento com a multidão, pela percepção das sensibilidades e pelo cruzamento das sombras frementes.
Sim, tudo isto podia não ter sido captado. Tudo isto podia permanecer na sombra de um corpo ausente. Ainda assim, não seria a mesma coisa.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Matemática

Num movimento brusco, atirou a borracha para o chão e inclinou-se para a apanhar.
 Sabia que a professora Catarina estava a escolher um aluno para ir ao quadro resolver um problema de matemática.
Demorou-se por debaixo da carteira. A julgar pela sua altura, certamente passava despercebida. Ou não.
“Isabel: ao quadro!”
“Pronto. Já foste…” – desabafou resignada, em confidência com os fantasmas matemáticos que a atormentavam na altura.
Claramente, a Matemática nunca foi o seu forte.
Para além de não conseguir reconhecer as vantagens de uma disciplina como aquela, tinha plena consciência, de que a liberdade para a resolução de problemas como aquele, era limitada e vinculada ao manual da época, que induzia o aluno a seguir um caminho, como se outros não houvesse.
Perdeu a criatividade, o espírito crítico, a capacidade de inventar e de resolver os problemas. Ainda que não a considerasse como uma das suas disciplinas favoritas, reconhecia a sua importância num mundo cada vez mais matematizado.
Hoje, sabe que a Matemática deverá ser encarada como um instrumento de compreensão e acção sobre a realidade.
Muito embora a pedagogia actual ainda preserve aspectos formais, de uma Matemática que privilegia o cálculo abstracto, o simbolismo e a abstracção pura, absolutamente desligadas da realidade e dos seus contextos socioculturais, construir cidadãos pensantes e preparados para o mundo real, deveria ser um dos objectivos de uma disciplina como esta.
A propósito da temática em causa, recordo uma reflexão de Piaget:
“Não são as matérias que ensinamos que os alunos não compreendem mas sim as lições que lhes damos”.
As mãos suavam. O pensamento estava congelado. Não sabia resolver o problema e a pressão imposta pelo olhar incisivo da professora, não ajudava.
Depois de ter permanecido dez minutos a olhar para um quadro, sem ter a chave para a resposta certa, regressou ao lugar.
A solução para o problema matemático ficou por deslindar. 
Restaram os olhares de um público passivo. O som das reguadas na mão pequenina. A aversão à Matemática.

Sons | Cheiros Lá dentro

O cheiro da escola era exactamente o mesmo.
A disposição das salas permaneceu inalterada. O chão de madeira carecia de remodelação e o corrimão verde-limão estava hoje quase sem cor.
Cuidadosamente, entrou num espaço que frequentou durante quatro anos.
Dentro daquela sala de aula, por cima do quadro de giz, permanecia o mesmo crucifixo. Deteve-se por instantes.
Religião e Moral. Na altura, o assunto era quase indiscutível. Ousar pensar, ousar questionar, não era um hábito para quem não pretendia dar a mão à palmatória.
Para além disso, a ideologia veiculada parecia fazer sentido. Só mais tarde percebeu as lacunas, de uma doutrina marcadamente amoral, cujo limite da legitimidade abraçava o passado de um homem que só não falhou, para quem não quis ver as suas falhas.
Aproximou-se da janela. Deixou-se levar ao som do vento, que beijava as árvores lá fora. Sentiu-se inquieta, à semelhança das folhas caducas, pintadas de um amarelo-torrado frágil.
Num movimento ligeiro, voltou a fixar o olhar nas carteiras de madeira escura.
As memórias surgiram em turbilhão.
De repente, voltou a ser a menina de outrora. Frágil. Dramaticamente obediente. Aterrada.
Lembrou a tensão perante os gritos em surdina, por parte da Professora Catarina; o entusiasmo ao perceber a “Língua Portuguesa” como tema de um Sumário minuciosamente descrito; o estratagema que inventava para não ir ao quadro resolver problemas de Matemática; os trinta minutos de um recreio passado a jogar às escondidas; os gestos preocupados da Josélia, uma funcionária sempre disponível para um abraço descomprometido.

Maré Vaza



Num sopro. Voltou a ter sete anos de idade.
As manhãs sempre foram dramáticas. Acordar tornava-se particularmente problemático, quando o que estava em causa era a interrupção de um sonho.
“Vá lá Isabel, já são horas… Não me faças perder a paciência!”
Sabia que a mãe fervia em pouca água. Insistir em permanecer deitada só ia piorar a situação. Espreguiçou-se ao comprido, na cama de casal, e encontrou forças para abandonar os lençóis.
A indumentária do dia já havia sido escolhida. A mãe adorava fazê-lo, mesmo depois de prever as discussões que poderia desencadear.
“Mãe, posso escolher a roupa para vestir hoje?” – perguntou acanhada.
“Tens cinco minutos!” – o tom de voz foi ríspido, mas percebeu-lhe o sorriso de soslaio.
De calças vermelhas, camisola amarela e gorro azul na cabeça, não podia estar mais confiante. Podia não ser a combinação perfeita, mas e depois?
A despreocupação de criança, rasgava em mil pedaços os preconceitos gastos, que povoam as mentalidades dos meninos crescidos. Vivia. Ao sabor da maré vaza.

Mãe do Canto

Mãe do Canto.
Conheceu o mundo a preto e branco e assistiu à evolução das mentalidades. Uma nova postura perante a vida se adivinhava, e ainda bem que assim o era.
Recorda as restrições que teve ao longo da adolescência. A rigidez das regras impostas pelos pais; os preceitos religiosos que respeitava meticulosamente, sem sequer se perguntar sobre o porquê de o fazer;  a voz estridente e claramente indignada de uma mãe que só queria o seu bem, mas que insistia em mostrar-lhe o lado indecente de um beijo; as promessas vazias de um sentimento que nunca conheceu.
Viveu durante grande parte da sua vida para cuidar da família. Foi mãe de três filhos que criou sozinha e a quem deu tudo o que tinha, e o que não tinha.
Os anos passaram.
Os filhos cresceram e foram forçados a sair do país. Um país que os enganou com promessas fáceis e que lhes roubou o chão.
Deixaram a Mãe. Naquele Canto. Aparecem esporadicamente, mas nunca para ficar. Abraçaram um país que lhes deu a vida com que sempre sonharam e compreendia bem isso.
Se pudesse tinha feito o mesmo. Agora já é tarde.
*
Olha para mim. Deixa voar os sonhos e só depois consegue dizer:
"Já não sei viver de outra maneira. O Natal é mais um dia. Sim, já teve sentido. Mas sempre foi o sentido errado."

sábado, 26 de novembro de 2011

“Que seja um bom Natal, para todos nós”


Parecia irónico. Nunca suportei aquela música mas naquele momento fez sentido.

Voltei a olhar para ela. As mãos enrugadas extraíam os poucos tostões que restavam na carteira azul petróleo. Suspirou. Retirou um volume de talões do Continente, cuidadosamente arquivados. Nas costas de um desses talões, começou a escrever. As mãos tremiam.
Não tinha pressa. Vivia sozinha. Daí não reagir bem a ruídos fortes. Respeitava o seu silêncio. Protegia-o.
Rumorejou entre dentes qualquer coisa que não consegui precisar. Depois descansou o olhar em mim e disse: «Este ano não há Natal».
Não lhe senti tristeza no olhar, nem queixume na voz. Estava claramente resignada, por um motivo que agora sei bem qual foi.

De Passagem

Uma tarde confusa. Nos dias de jogo aquela zona era particularmente caótica. «Benfica!» - Gritava um grupo de jovens, escrupulosamente vestido: cachecol encarnado ao pescoço, gorro na cabeça, sorriso estampado no rosto e, como não podia deixar de ser, acompanhados pela loirinha da praxe.
Entrei no café. No canto mais discreto do espaço, lá estava ela: mergulhada em roupas largas e pouco cuidadas. Os olhos postos num naco de pão, que devorava como se não existisse amanhã.
Acena com um gesto de reprovação, depois dos gritos dos entusiastas vindos da loja ao lado. «Nunca gostei de Futebol. Não era agora, depois de velha, que ia gostar», desabafou. Sentiu-se observada. Olhou para mim e perguntou: «a menina gosta?»
Sorri. Apesar da idade, conservava uns olhos grandes, pintados de um verde que já não existe. Um verde que esconde décadas de memórias que pertencem ao passado. Memórias que ficaram longe de tudo o que hoje está perto.
Acenei em jeito de reprovação. Nunca gostei de futebol. Nunca fui capaz de sentir a mínima frustração pela perda de um jogo, por parte do clube “venerado” pela família. Passou-me sempre ao lado. Ainda que me divertisse imenso perante a indignação do meu irmão (fanático pelo Benfica), e a aparente indiferença do meu pai (um espectador passivo e que facilmente “virava a página”).

Mais tarde percebi, que esse tipo de comportamento reflectia a pragmaticidade com que agia perante tudo na vida.