sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quarantaine - 3ª Parte

Quarantaine é um filme de Marlene Millar e Philip Szporer, lançado no final de 2009. A dupla fundou a produtora de cinema Mouvement Perpétuel, especializada em documentários sobre as artes.
Com 48 minutos de duração, Quarantaine reúne dança, música, animação e documentário, contando com um elenco composto por Marc Béland, Marc Daigle, Benôit Lachambre e Ken Roy. Neste documentário, os protagonistas reflectem sobre uma juventude apagada, sem deixarem de patentear os seus sonhos, esperanças, lamentos e obsessões.
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Os olhos azuis recebiam o mundo. O cabelo castanho-escuro era fino e estendia-se num movimento austero até ao fim das costas. A expressividade corporal de Benôit Lachambre transmitiu uma segurança indiscutível, mas os lábios finos rasgaram um sorriso vacilante.
Imobilizou o olhar. Engoliu em seco, e mais tarde confessou com a voz embargada:
«Quando era criança tinha medo de estar sozinho».

Quarantaine - 2ª Parte

Quatro homens. Oito pés confiantes. Um chão frágil e gasto, pintado pelo olhar polido de sonhos vãos.
«Tenho medo da intimidade» – acrescentou sem pudores, Ken Roy.
Preservava o seu espaço. Negava várias vezes um envelhecimento inevitável. Mostrava uma dependência emocional que não se atrevia a explicar. Sentia uma atracção questionável por mulheres mais novas. Procurava colmatar uma juventude que já não tinha, com o desenvolvimento de relações fugazes.

A síndrome de Peter Pan não podia fazer mais sentido. Ainda assim, fugia.
Por entre a raiva de um silêncio constrangedor, dava lugar ao vazio. Preenchia-o na proficiência dos gestos que já conhecia.
Dançava. Expressava o corpo numa mescla de movimentos equilibrados, e agarrava os fragmentos de uma consciência passada, ainda por construir.

Quarantaine - 1ª Parte

E se as fragilidades pudessem ficar acorrentadas na mais remota infância?
Na escuridão. A sombra. Os pés. Os gestos seguros escondem a fragilidade de um homem consumido no abraço da idade.
Os movimentos infiéis balançam entre o certo e o incerto. Soltam-se e protagonizam o espaço feroz da mutabilidade. As deslocações circulares mostram os traços de um homem com uma criança ao colo. Uma criança embalada na sombra de um futuro distante.
E se o tempo pudesse parar?
Os anos passaram. Não esperaram. Não conservaram. Mostram agora mil e uma passagens, de uma vida resumida a breves sulcos de viagens e regressos.
E se o medo fosse um mito?
«Tenho medo» – confessou Marc Béland, por entre gargalhadas indiscretas, que escondiam os seus 40 anos de idade.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Olhar (N) a Sombra

O olhar era trémulo. Desarmado. Oscilava entre o vazio e o retrato das fisionomias irregulares que o rodeavam.
Deixou o cansaço trancado em casa e partilhou na Pickpocket Gallery o segredo do seu olhar. Um olhar que desmonta expressões corporais, e que constrói interpretações espontâneas de um universo fotográfico singular.
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Cláudio Ferreira tem 37 anos e traz o poder do olhar, na sombra corporal de um Alguém em permanente contacto com a tecnologia.
Num envolvimento intenso com todo o making off, da segunda edição do Festival In Shadow, Cláudio criou atmosferas marcadamente densas em que a presença da tecnologia foi imprescindível.
As imagens em exposição, na Pickpocket Gallery, retratam sensibilidades que procuram uma liberdade provisória, no rasto de uma luz que se pode tocar.
Sem nunca descurar o corpo como pilar edificador de espaços desiguais, Cláudio Ferreira assinou um contrato a termo incerto com o tempo, e congelou cada instante decisivo nos espectáculos, que integraram a segunda edição do Festival In Shadow.
O contacto com pessoas interessantes e a possibilidade de usufruir de uma aprendizagem singular, foram duas das retribuições, que hoje recorda através da sua participação, na terceira edição deste Festival.
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Mergulha fundo, na sombra de um universo complexo. O olhar tímido perde-se na multidão de gestos incertos.
Cláudio Ferreira tem uma voz grave, e acompanha os movimentos concordantes de duas mãos, que pretendem complementar o significado de cada palavra falada.
As imagens fortes que captou, pertencem a um registo distinto ao qual não conseguiu fugir quando desafiado pela força de um olhar propositado.
Viver sem a imagem está fora dos seus planos. O seu caminho passa pelo envolvimento com a multidão, pela percepção das sensibilidades e pelo cruzamento das sombras frementes.
Sim, tudo isto podia não ter sido captado. Tudo isto podia permanecer na sombra de um corpo ausente. Ainda assim, não seria a mesma coisa.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Matemática

Num movimento brusco, atirou a borracha para o chão e inclinou-se para a apanhar.
 Sabia que a professora Catarina estava a escolher um aluno para ir ao quadro resolver um problema de matemática.
Demorou-se por debaixo da carteira. A julgar pela sua altura, certamente passava despercebida. Ou não.
“Isabel: ao quadro!”
“Pronto. Já foste…” – desabafou resignada, em confidência com os fantasmas matemáticos que a atormentavam na altura.
Claramente, a Matemática nunca foi o seu forte.
Para além de não conseguir reconhecer as vantagens de uma disciplina como aquela, tinha plena consciência, de que a liberdade para a resolução de problemas como aquele, era limitada e vinculada ao manual da época, que induzia o aluno a seguir um caminho, como se outros não houvesse.
Perdeu a criatividade, o espírito crítico, a capacidade de inventar e de resolver os problemas. Ainda que não a considerasse como uma das suas disciplinas favoritas, reconhecia a sua importância num mundo cada vez mais matematizado.
Hoje, sabe que a Matemática deverá ser encarada como um instrumento de compreensão e acção sobre a realidade.
Muito embora a pedagogia actual ainda preserve aspectos formais, de uma Matemática que privilegia o cálculo abstracto, o simbolismo e a abstracção pura, absolutamente desligadas da realidade e dos seus contextos socioculturais, construir cidadãos pensantes e preparados para o mundo real, deveria ser um dos objectivos de uma disciplina como esta.
A propósito da temática em causa, recordo uma reflexão de Piaget:
“Não são as matérias que ensinamos que os alunos não compreendem mas sim as lições que lhes damos”.
As mãos suavam. O pensamento estava congelado. Não sabia resolver o problema e a pressão imposta pelo olhar incisivo da professora, não ajudava.
Depois de ter permanecido dez minutos a olhar para um quadro, sem ter a chave para a resposta certa, regressou ao lugar.
A solução para o problema matemático ficou por deslindar. 
Restaram os olhares de um público passivo. O som das reguadas na mão pequenina. A aversão à Matemática.

Sons | Cheiros Lá dentro

O cheiro da escola era exactamente o mesmo.
A disposição das salas permaneceu inalterada. O chão de madeira carecia de remodelação e o corrimão verde-limão estava hoje quase sem cor.
Cuidadosamente, entrou num espaço que frequentou durante quatro anos.
Dentro daquela sala de aula, por cima do quadro de giz, permanecia o mesmo crucifixo. Deteve-se por instantes.
Religião e Moral. Na altura, o assunto era quase indiscutível. Ousar pensar, ousar questionar, não era um hábito para quem não pretendia dar a mão à palmatória.
Para além disso, a ideologia veiculada parecia fazer sentido. Só mais tarde percebeu as lacunas, de uma doutrina marcadamente amoral, cujo limite da legitimidade abraçava o passado de um homem que só não falhou, para quem não quis ver as suas falhas.
Aproximou-se da janela. Deixou-se levar ao som do vento, que beijava as árvores lá fora. Sentiu-se inquieta, à semelhança das folhas caducas, pintadas de um amarelo-torrado frágil.
Num movimento ligeiro, voltou a fixar o olhar nas carteiras de madeira escura.
As memórias surgiram em turbilhão.
De repente, voltou a ser a menina de outrora. Frágil. Dramaticamente obediente. Aterrada.
Lembrou a tensão perante os gritos em surdina, por parte da Professora Catarina; o entusiasmo ao perceber a “Língua Portuguesa” como tema de um Sumário minuciosamente descrito; o estratagema que inventava para não ir ao quadro resolver problemas de Matemática; os trinta minutos de um recreio passado a jogar às escondidas; os gestos preocupados da Josélia, uma funcionária sempre disponível para um abraço descomprometido.

Maré Vaza



Num sopro. Voltou a ter sete anos de idade.
As manhãs sempre foram dramáticas. Acordar tornava-se particularmente problemático, quando o que estava em causa era a interrupção de um sonho.
“Vá lá Isabel, já são horas… Não me faças perder a paciência!”
Sabia que a mãe fervia em pouca água. Insistir em permanecer deitada só ia piorar a situação. Espreguiçou-se ao comprido, na cama de casal, e encontrou forças para abandonar os lençóis.
A indumentária do dia já havia sido escolhida. A mãe adorava fazê-lo, mesmo depois de prever as discussões que poderia desencadear.
“Mãe, posso escolher a roupa para vestir hoje?” – perguntou acanhada.
“Tens cinco minutos!” – o tom de voz foi ríspido, mas percebeu-lhe o sorriso de soslaio.
De calças vermelhas, camisola amarela e gorro azul na cabeça, não podia estar mais confiante. Podia não ser a combinação perfeita, mas e depois?
A despreocupação de criança, rasgava em mil pedaços os preconceitos gastos, que povoam as mentalidades dos meninos crescidos. Vivia. Ao sabor da maré vaza.