domingo, 4 de dezembro de 2011

Espelho Mirror - 2ª Parte

Mil e um movimentos, mil e um comportamentos discordantes, mil e uma simulações despersonalizadas.
No ecrã são projectadas as imagens dos seus três heterónimos.

«Não quero que os heterónimos venham porque vou pensar neles. Quero ir buscá-los Lá. Quero a verdade deles».

Num movimento incisivo, apaga cada vela delicadamente acesa, para depois derramar a cera pelo corpo frio e deixar que se entranhe na pele.
Desprovido dos emblemáticos preceitos de uma sociedade tradicional, Bruno Rodrigues dá corpo a três heterónimos, que espelham a versatilidade de uma personalidade que nunca muda, «às vezes é obscura».

«Gosto de ser eu próprio com todas estas facetas (…) Não ter heterónimos durante vinte e quatro horas deve ser uma tristeza. Vinte e quatro horas é muito tempo»
 
À margem da autocontemplação, Bruno deixa de lado o espelho, enquanto acessório meramente ilustrativo, e procura o rumo do seu "eu", em efémeros momentos de reflexão.

Anos e anos do que não foi eu | Vivi recluso no ser que era o meu. | Anos e anos de quem nunca fui | Vivi submisso do meu ser que flui. FP


Conhecer o universo de comportamentos, que fervilham no interior de um ser sem destino, é um dos propósitos dos homens estranhos que estão agora em pleno palco, no Teatro do Bairro, a apagar velas transitoriamente acesas.

Espelho Mirror - 1ª Parte

«Yes I confess»A voz grave é assertiva e cruza gritos de sofrimento evidentes, com o choro de uma criança estranhamente dominada por heterónimos que precisa de usar. São seguramente, a sua ferramenta de sobrevivência.

Na tenacidade de um movimento intencional, faz uma vénia solene aos livros arrojados no chão escuro e empoeirado.
Bruno está deitado num chão que não dá espaço à incerteza dos traços. Os traços de uma personalidade multifacetada.

Naquele palco não são necessários mais adereços. Chegam os livros dispostos no chão e as velas acesas, no lado oposto da sabedoria oculta.
Com a ajuda dos braços recua dois passos, sempre sentado. O mundo desabou na história dos livros, nos quais sempre acreditou.

O olhar mostra desespero. Ao longe soam conversas segredadas. Murmúrios desconfortáveis.

Salta de livro em livro e pisa a sabedoria sem arrependimento, como se fizesse parte do seu caminho.
Já descalço, caminha em direcção às páginas do tempo.
Sorri para quem o vê. A luz ainda existe.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Crescer - Para quê?

O regresso ao passado. A eterna metástase da metanóia – um período de alterações estruturais profundas e de questionamentos, sobre os sentidos da vida. Sentidos que continuam a ser transferidos para segundo plano, como se a sua importância fosse ridiculamente irrisória.
A crise de meia-idade masculina foi o tema abordado, no documentário Quarantaine e justifica algumas das atitudes psíquicas, frequentemente censuradas pela sociedade.
O processo de desenvolvimento masculino ocorre num plano simbólico, o que significa que não há garantias relativamente àquilo que vai acontecer no futuro.
A “não-aceitação” desse processo torna-se constante e só é percebida enquanto tal, anos mais tarde. Nesta fase, a renúncia ao passado torna-se forçosa. Libertadora, se quiserem.
Esta é uma crise que, ao contrário do que acontece com as mulheres, na menopausa, não tem necessariamente que estar associada a uma disfunção hormonal. Para muitos cientistas, a origem filosófica e psíquica deste tipo de conflitos, é absolutamente inegável.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quarantaine - 3ª Parte

Quarantaine é um filme de Marlene Millar e Philip Szporer, lançado no final de 2009. A dupla fundou a produtora de cinema Mouvement Perpétuel, especializada em documentários sobre as artes.
Com 48 minutos de duração, Quarantaine reúne dança, música, animação e documentário, contando com um elenco composto por Marc Béland, Marc Daigle, Benôit Lachambre e Ken Roy. Neste documentário, os protagonistas reflectem sobre uma juventude apagada, sem deixarem de patentear os seus sonhos, esperanças, lamentos e obsessões.
*
Os olhos azuis recebiam o mundo. O cabelo castanho-escuro era fino e estendia-se num movimento austero até ao fim das costas. A expressividade corporal de Benôit Lachambre transmitiu uma segurança indiscutível, mas os lábios finos rasgaram um sorriso vacilante.
Imobilizou o olhar. Engoliu em seco, e mais tarde confessou com a voz embargada:
«Quando era criança tinha medo de estar sozinho».

Quarantaine - 2ª Parte

Quatro homens. Oito pés confiantes. Um chão frágil e gasto, pintado pelo olhar polido de sonhos vãos.
«Tenho medo da intimidade» – acrescentou sem pudores, Ken Roy.
Preservava o seu espaço. Negava várias vezes um envelhecimento inevitável. Mostrava uma dependência emocional que não se atrevia a explicar. Sentia uma atracção questionável por mulheres mais novas. Procurava colmatar uma juventude que já não tinha, com o desenvolvimento de relações fugazes.

A síndrome de Peter Pan não podia fazer mais sentido. Ainda assim, fugia.
Por entre a raiva de um silêncio constrangedor, dava lugar ao vazio. Preenchia-o na proficiência dos gestos que já conhecia.
Dançava. Expressava o corpo numa mescla de movimentos equilibrados, e agarrava os fragmentos de uma consciência passada, ainda por construir.

Quarantaine - 1ª Parte

E se as fragilidades pudessem ficar acorrentadas na mais remota infância?
Na escuridão. A sombra. Os pés. Os gestos seguros escondem a fragilidade de um homem consumido no abraço da idade.
Os movimentos infiéis balançam entre o certo e o incerto. Soltam-se e protagonizam o espaço feroz da mutabilidade. As deslocações circulares mostram os traços de um homem com uma criança ao colo. Uma criança embalada na sombra de um futuro distante.
E se o tempo pudesse parar?
Os anos passaram. Não esperaram. Não conservaram. Mostram agora mil e uma passagens, de uma vida resumida a breves sulcos de viagens e regressos.
E se o medo fosse um mito?
«Tenho medo» – confessou Marc Béland, por entre gargalhadas indiscretas, que escondiam os seus 40 anos de idade.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Olhar (N) a Sombra

O olhar era trémulo. Desarmado. Oscilava entre o vazio e o retrato das fisionomias irregulares que o rodeavam.
Deixou o cansaço trancado em casa e partilhou na Pickpocket Gallery o segredo do seu olhar. Um olhar que desmonta expressões corporais, e que constrói interpretações espontâneas de um universo fotográfico singular.
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Cláudio Ferreira tem 37 anos e traz o poder do olhar, na sombra corporal de um Alguém em permanente contacto com a tecnologia.
Num envolvimento intenso com todo o making off, da segunda edição do Festival In Shadow, Cláudio criou atmosferas marcadamente densas em que a presença da tecnologia foi imprescindível.
As imagens em exposição, na Pickpocket Gallery, retratam sensibilidades que procuram uma liberdade provisória, no rasto de uma luz que se pode tocar.
Sem nunca descurar o corpo como pilar edificador de espaços desiguais, Cláudio Ferreira assinou um contrato a termo incerto com o tempo, e congelou cada instante decisivo nos espectáculos, que integraram a segunda edição do Festival In Shadow.
O contacto com pessoas interessantes e a possibilidade de usufruir de uma aprendizagem singular, foram duas das retribuições, que hoje recorda através da sua participação, na terceira edição deste Festival.
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Mergulha fundo, na sombra de um universo complexo. O olhar tímido perde-se na multidão de gestos incertos.
Cláudio Ferreira tem uma voz grave, e acompanha os movimentos concordantes de duas mãos, que pretendem complementar o significado de cada palavra falada.
As imagens fortes que captou, pertencem a um registo distinto ao qual não conseguiu fugir quando desafiado pela força de um olhar propositado.
Viver sem a imagem está fora dos seus planos. O seu caminho passa pelo envolvimento com a multidão, pela percepção das sensibilidades e pelo cruzamento das sombras frementes.
Sim, tudo isto podia não ter sido captado. Tudo isto podia permanecer na sombra de um corpo ausente. Ainda assim, não seria a mesma coisa.