segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Back


A duas cores. Num movimento flutuante, o corpo transita entre o tudo e o nada. A duas cores. O som do vento é ainda fraco mas evidente. Não existem traços faciais. A juventude desaparece por detrás de um capelo onde o mistério toca os limites do desconhecido. A duas cores.

Seis mãos tocam a terra. Deixam-se ficar. Pressentem o movimento giratório dos moinhos de vento. Ouvem a voz do tempo. Descodificam a sua mensagem.
Permitem-se contagiar pela atmosfera dos sentidos, e transferem os movimentos corporais para o lado doce da inconsciência.

«É hora de fugir» - segredam em concordância, sem deixarem de renunciar à liberdade individual de escolha.

As personagens multiplicam-se num espaço onde não existe a cor da diferença. O tempo passa por elas e não conta nada de novo. Cumpre-se o destino da existência, por entre as sombras de quatro moinhos de vento infatigáveis.

O anos passaram. É tempo de encontrar um chão. Um chão que não abra mão do seu próprio espaço, nem se deixe consumir por moinhos de vento.
*Back - Um trailer de Vicent Gisbert Soler. Para ver este trailer, clique aqui.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Quadratura do Espaço Curvo


Quadratura do Espaço Curvo foi uma das exibições, que marcou um dos dias do Festival In Shadow e que teve lugar no Teatro do Bairro, em Lisboa.
Pedro Ramos foi o protagonista deste Solo Shadow e, numa breve entrevista, aborda o tempo e o espaço enquanto vectores que moldam a existência humana.

«Onde é que eu me situo enquanto indivíduo, no espaço e no tempo?»

«O interessante do nosso tempo, é que as coisas são destituídas daquilo que é convencional, para estarem em espaços ambíguos.»

«O tempo e o espaço são entidades abstractas que não existem realmente. Existem porque nós as inventámos»

Para ouvir o suporte áudio desta entrevista clique aqui .

Espelho Mirror - 2ª Parte

Mil e um movimentos, mil e um comportamentos discordantes, mil e uma simulações despersonalizadas.
No ecrã são projectadas as imagens dos seus três heterónimos.

«Não quero que os heterónimos venham porque vou pensar neles. Quero ir buscá-los Lá. Quero a verdade deles».

Num movimento incisivo, apaga cada vela delicadamente acesa, para depois derramar a cera pelo corpo frio e deixar que se entranhe na pele.
Desprovido dos emblemáticos preceitos de uma sociedade tradicional, Bruno Rodrigues dá corpo a três heterónimos, que espelham a versatilidade de uma personalidade que nunca muda, «às vezes é obscura».

«Gosto de ser eu próprio com todas estas facetas (…) Não ter heterónimos durante vinte e quatro horas deve ser uma tristeza. Vinte e quatro horas é muito tempo»
 
À margem da autocontemplação, Bruno deixa de lado o espelho, enquanto acessório meramente ilustrativo, e procura o rumo do seu "eu", em efémeros momentos de reflexão.

Anos e anos do que não foi eu | Vivi recluso no ser que era o meu. | Anos e anos de quem nunca fui | Vivi submisso do meu ser que flui. FP


Conhecer o universo de comportamentos, que fervilham no interior de um ser sem destino, é um dos propósitos dos homens estranhos que estão agora em pleno palco, no Teatro do Bairro, a apagar velas transitoriamente acesas.

Espelho Mirror - 1ª Parte

«Yes I confess»A voz grave é assertiva e cruza gritos de sofrimento evidentes, com o choro de uma criança estranhamente dominada por heterónimos que precisa de usar. São seguramente, a sua ferramenta de sobrevivência.

Na tenacidade de um movimento intencional, faz uma vénia solene aos livros arrojados no chão escuro e empoeirado.
Bruno está deitado num chão que não dá espaço à incerteza dos traços. Os traços de uma personalidade multifacetada.

Naquele palco não são necessários mais adereços. Chegam os livros dispostos no chão e as velas acesas, no lado oposto da sabedoria oculta.
Com a ajuda dos braços recua dois passos, sempre sentado. O mundo desabou na história dos livros, nos quais sempre acreditou.

O olhar mostra desespero. Ao longe soam conversas segredadas. Murmúrios desconfortáveis.

Salta de livro em livro e pisa a sabedoria sem arrependimento, como se fizesse parte do seu caminho.
Já descalço, caminha em direcção às páginas do tempo.
Sorri para quem o vê. A luz ainda existe.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Crescer - Para quê?

O regresso ao passado. A eterna metástase da metanóia – um período de alterações estruturais profundas e de questionamentos, sobre os sentidos da vida. Sentidos que continuam a ser transferidos para segundo plano, como se a sua importância fosse ridiculamente irrisória.
A crise de meia-idade masculina foi o tema abordado, no documentário Quarantaine e justifica algumas das atitudes psíquicas, frequentemente censuradas pela sociedade.
O processo de desenvolvimento masculino ocorre num plano simbólico, o que significa que não há garantias relativamente àquilo que vai acontecer no futuro.
A “não-aceitação” desse processo torna-se constante e só é percebida enquanto tal, anos mais tarde. Nesta fase, a renúncia ao passado torna-se forçosa. Libertadora, se quiserem.
Esta é uma crise que, ao contrário do que acontece com as mulheres, na menopausa, não tem necessariamente que estar associada a uma disfunção hormonal. Para muitos cientistas, a origem filosófica e psíquica deste tipo de conflitos, é absolutamente inegável.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Quarantaine - 3ª Parte

Quarantaine é um filme de Marlene Millar e Philip Szporer, lançado no final de 2009. A dupla fundou a produtora de cinema Mouvement Perpétuel, especializada em documentários sobre as artes.
Com 48 minutos de duração, Quarantaine reúne dança, música, animação e documentário, contando com um elenco composto por Marc Béland, Marc Daigle, Benôit Lachambre e Ken Roy. Neste documentário, os protagonistas reflectem sobre uma juventude apagada, sem deixarem de patentear os seus sonhos, esperanças, lamentos e obsessões.
*
Os olhos azuis recebiam o mundo. O cabelo castanho-escuro era fino e estendia-se num movimento austero até ao fim das costas. A expressividade corporal de Benôit Lachambre transmitiu uma segurança indiscutível, mas os lábios finos rasgaram um sorriso vacilante.
Imobilizou o olhar. Engoliu em seco, e mais tarde confessou com a voz embargada:
«Quando era criança tinha medo de estar sozinho».

Quarantaine - 2ª Parte

Quatro homens. Oito pés confiantes. Um chão frágil e gasto, pintado pelo olhar polido de sonhos vãos.
«Tenho medo da intimidade» – acrescentou sem pudores, Ken Roy.
Preservava o seu espaço. Negava várias vezes um envelhecimento inevitável. Mostrava uma dependência emocional que não se atrevia a explicar. Sentia uma atracção questionável por mulheres mais novas. Procurava colmatar uma juventude que já não tinha, com o desenvolvimento de relações fugazes.

A síndrome de Peter Pan não podia fazer mais sentido. Ainda assim, fugia.
Por entre a raiva de um silêncio constrangedor, dava lugar ao vazio. Preenchia-o na proficiência dos gestos que já conhecia.
Dançava. Expressava o corpo numa mescla de movimentos equilibrados, e agarrava os fragmentos de uma consciência passada, ainda por construir.