sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

À Margem das Emoções - 5ª Parte

A metadona tem um efeito de opióide positivo, uma vez prescrito numa dose adequada, e mantém a pessoa sem necessidade de consumir heroína e capaz de desenvolver a sua vida normalmente. Ainda que numa fase inicial, a pessoa experimente uma sensação de libertação, relativamente a um ciclo diário de consumo, numa fase posterior essa libertação poderá transformar-se numa prisão.
António Costa frisa não ser bom que os utentes tenham que tomar um opióide de substituição: «A metadona é um opióide tal como a heroína. As pessoas que o administram ficam dependentes dele, ainda que sejam capazes de viver a sua vida. Há pessoas que poderão ficar a vida toda a tomar aquilo, outras que tomarão durante um tempo limitado».
A utilização da metadona pode ou não ser necessária, de acordo com o modelo integrado de intervenção de cada doente. A pessoa que decide fazer um tratamento deste género, está integrada noutros recursos terapêuticos, dos quais se destaca a relação com o terapeuta. «É da relação que se passa para a aliança terapêutica e da aliança terapêutica para o projecto terapêutico, que será revisto ao longo do tempo, de acordo com as necessidades do utente», declara António Costa.
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À Margem das Emoções - 4ª Parte

Depois de três anos a consumir droga com a mesma fonte de rendimento, Pedro despede-se de um emprego que já tinha como estável. Aos dezoito anos começa a arrumar carros, para alimentar uma dependência contínua, que se prolongou até aos vinte e cinco anos de idade.
«A minha mãe não podia sustentar um vício que era meu», reconhece. «Só a arrumar carros, conseguia cerca de trezentos euros por dia. A minha mãe costuma dizer que eu tenho um BMW num braço e um prédio de luxo no outro», confirma entre risos discretos.

Os sete anos que se seguiram fizeram da rua a única morada que tinha como certa e da heroína a sua melhor amiga. Pedro trabalhava todos os dias, sem abrir excepção a qualquer data. «Não havia Natal. Para mim era tudo igual».
Entre seringas deixadas numa cama por fazer e os comportamentos manipulativos de um filho que já não conhecia, a mãe de Pedro já não tinha dúvidas quanto à sua doença.
Com o passar do tempo a heroína deixou de ser suficiente e aos dezanove anos iniciou o consumo de cocaína – a droga que o deixava extasiado.
Deixou o medo em parte incerta e viveu a vida na eminência de um perigo evidente.
«Brinquei com a vida», recorda. Estava perdido. Vagueava entre a certeza de ter que deixar a droga e ausência de forças para o fazer. Tentou o suicídio. «Senti que era um peso para a minha família», confessou.
Com o aparecimento da EMEL, a profissão que adoptou mostrou ter os dias contados. Dividir os seus dias em deslocações entre a sua casa e o parque de estacionamento onde trabalhava, tornou-se cada vez menos rentável. Foi nessa altura que admitiu a possibilidade de um tratamento. «Ou vou roubar, ou tenho que me ir tratar», afirma.
Com vinte e cinco anos, Pedro deu os primeiros passos na direcção certa, decidido a expulsar a droga da sua vida. O passado que trazia consigo foi um dos factores que dificultou os primeiros tempos de um tratamento que não foi fácil. «Eu vinha de um ambiente complicado. Do salve-se quem puder. No mundo da droga não há amigos. A única amiga é a heroína».
Ao contrário de alguns dos seus colegas, Pedro fez o seu tratamento na ausência de metadona – um analgésico da classe dos narcóticos, que reduz os sintomas de dor neuropática, numa fase de abstinência. «Largar a droga não custa. O que custa é voltar a sentir as emoções. Viver a vida». Assevera, sem queixume na voz, para depois acrescentar: «Senti a minha “ressaca” na pele. Foi uma grande luta».
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À Margem das Emoções - 3ª Parte

Ainda que numa fase inicial, o consumo de substâncias psicoactivas, possa ser considerado através de uma abordagem psicanalítica, na medida em que a dependência é vista como sintoma de um conflito psicológico subjacente ou de uma personalidade previamente vulnerável, numa fase posterior da dependência, o problema revela contornos distintos.
Num dos gabinetes do Centro de Dia, do Parque de Saúde de Lisboa, o ambiente é tranquilo. Sentado num dos sofás do mesmo gabinete está António Costa - Coordenador do grupo de trabalho, relativo ao Consumo de Substâncias Psicoactivas e Comorbilidades Psiquiátricas, do Centro das Taipas, em Lisboa.
De olhos postos num copo com café, António Costa explica que as características psicológicas de uma determinada pessoa, poderão conduzir ao desejo de experimentar uma substância psicoactiva. No entanto, numa fase de dependência, o consumo deixa de estar associado a uma necessidade psicológica, para passar a ser uma necessidade física.
«Um cérebro que se habitua a funcionar com a heroína, por exemplo, quando ela lhe falta, ele grita dizendo – ‘Dá-me que eu preciso dela!’ – O corpo pede aos gritos e isso traduz um desejo imperioso de consumir.»

À Margem das Emoções - 2ª Parte





De mãos pousadas sobre uma mesa de madeira, Pedro volta a ser a criança de outrora. De passagem, consegue recordar todos os momentos. Mesmo aqueles, que permanecem fechados a sete chaves.
O olhar vazio esconde a história de um menino, que cresceu sem o amor de um pai alcoólico, que só viu três vezes. Entregue aos cuidados da mãe e do avô materno, cedo percebeu o ambiente violento a que foi submetido.





A alteração temporária de percepções de risco, sob o efeito do álcool, foi evidente e cedo culminou em investidas físicas difíceis de esquecer.
«Se ainda estou cá, posso agradecer a uma vizinha, que me salvou. Tinha cinco anos. O meu avô chegou a casa completamente bêbado e apertou-me o pescoço, até eu ficar sem cor».
As agressões deixaram marcas que o tempo não apagou. Ainda assim, Pedro reconhece no avô o pai que nunca teve, e preserva os bons momentos de uma relação que ainda existe.
O olhar pensativo descansa nas mãos grandes e grossas.
Tem sete anos de idade. Uma caixa de comprimidos vazia, reflectida no espelho da casa de banho, parece patentear o pior. «Foi dramático. Na altura em que eu precisava mais dela…», conta. Na obtusidade de um sopro, revive a tentativa de suicídio, por parte da Mãe, depois da discussão acesa que teve com o pai.
Virou a página mais uma vez e desejou o alento do amanhã promissor.
Pedro era um menino extrovertido e de palavras fáceis. No seu mundo de gestos ousados, não havia espaço para restrições. «Não tinha quaisquer limites. Faltava-me a mão de um pai».
Aos seis anos de idade começou a fumar e aos onze anos deixou a escola para começar a trabalhar como ajudante de camionista.
De semblante fechado, Pedro desembarga a voz para contar a experiência que definiu os tempos que se seguiram. Com doze anos de idade experimentou uma droga, que só mais tarde veio a saber que era heroína.
Curiosidade foi o motivo que o levou a consumir pela segunda vez, para depois mergulhar num mundo, onde os problemas eram mitos ausentes.
«Porque não? Estava relaxado. Estava-se bem.»
Durante cinco meses, o consumo sempre foi gratuito e feito através de amigos. Estava longe de admitir a possibilidade de se encontrar dependente de uma substância. Foi o sintoma de uma suposta constipação, que o fez perceber que estava a ‘ressacar’ de um opióide, que precisava de voltar a consumir – a heroína.
Aos quinze anos Pedro já consumia diariamente e suportar um emprego tornou-se cada vez mais complicado. «Quando tinha droga ia trabalhar. Quando não tinha, não ia», confessa resignado.
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À Margem das Emoções - 1ª Parte

Os olhares desatentos vagueiam sem destino. Percorrem o chão e desenham o trajecto de um rumo incerto. Entre palavras e gestos discordantes, os utentes do pólo Júlio de Matos, do Parque de Saúde de Lisboa, vivem mais um dia.
No Pavilhão nº 27 do mesmo Parque, é o Centro de Dia do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). O refúgio daqueles que perderam o chão.
Sentado nas escadas que dão acesso ao pavilhão, está um homem mergulhado numa viagem sem regresso. Os olhos postos na escadaria de pedra, não se deixam perceber. Demora-se entre breves travos, para depois se despedir de um cigarro, já quase sem vida. Os dedos amarelos contam anos de um vício que não soube controlar.
«Tenho que ir» - murmura e desaparece por entre as sombras imprecisas do seu próprio corpo.
No interior do Centro de Dia, o ar é abafado. Denuncia o peso das histórias. Os capítulos de um passado, que insiste em fazer-se presente, com todos os fantasmas de uma adolescência mal sentida.
No piso de cima, o ambiente é descontraído. Numa das mesas, ao fundo da sala, três utentes baralham as cartas e ditam as regras do seu próprio jogo. O jogo da vida.
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A Toxicodependência - Introdução

A toxicodependência – uma “realidade escondida e dinâmica”.
Ainda que as últimas estatísticas não sejam alarmantes, o consumo de drogas continua a ser problemático e a intervenção no domínio das toxicodependências, é cada vez mais complexa. O estado de saúde físico e psicológico dos consumidores, as idades de início de consumo, a frequência, a quantidade e a duração do seu uso são alguns dos factores, que justificam os danos associados ao consumo de substâncias psicotrópicas.
De acordo com os resultados de um estudo, destinado a acompanhar a evolução de substâncias psicoactivas, nos grupos etários dos 13 aos 18 anos, o balanço global aponta para a necessidade de se investir numa prevenção de consumos, relativamente à experimentação de drogas estimulantes. O estudo foi divulgado a 16 de Novembro de 2011 e está enquadrado no ESPAD - European School Survey on Alcohol and other Drugs.
Pedro tem hoje 37 anos e foi consumidor de heroína e cocaína durante treze anos consecutivos. Inverter o trajecto de uma vida sem sentido foi o desafio a que se propôs, ao iniciar um tratamento marcado por avanços e recuos.

Para ouvir o suporte sonoro desta reportagem, clique aqui .

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Notion Dance Fiction


Desta vez, as luzes não se apagaram.
Os olhares de um público sedento procuram um estímulo. Um ímpeto sonoro, capaz de quebrar aquele silêncio. De repente: dois corpos. Duas vozes. A atenção tomou lugar no canto lateral esquerdo,do palco principal do Teatro de São Luíz. O lado onde as conexões conceptuais de uma mente, ameaçavam contagiar a influência tecnológica do corpo.
Foi entre risos e palavras cambiadas que Ka Fai Choy apresentou Notion Dance Fiction. Uma performance baseada numa investigação inovadora, em torno da memória muscular digital.
Mas, poderá a subjectividade de uma memória corporal ser resumida à materialização de uma memória colectiva? Poderão os estímulos involuntários estar na origem de uma representação material, daquilo que poderá vir a ser uma subjectividade pós-moderna?
Através da apresentação de movimentos icónicos de dança do século XX, Ka Fai Choy manipula os grupos musculares em actividade, cria movimentos artificiais involuntários e controla, em tempo real, o corpo de uma bailarina dominada por estímulos eléctricos.
Aprender, adaptar e recriar. Três desafios, que se assumem perante uma das personagens dispostas no centro daquele palco.
Transportada para o espaço ténue do tempo futuro, a bailarina deixa-se projectar na sombra de um passado, e dá sentido à multiplicidade de movimentos reproduzidos, num processo involuntário que o corpo já não pode memorizar.