sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

À Margem das Emoções - 8ª Parte

Pedro está hoje inserido no Projecto Vida – Emprego, promovido pelo IDT.
Embora não trabalhe há oito anos, espera inverter esta situação em Janeiro de 2012. Ter um emprego estável, uma casa própria e tirar a carta de condução, são algumas das aspirações que conta ver concretizadas no próximo ano.
As mãos pousadas sobre as pernas, e o tronco encostado sobre a cadeira de madeira deslindam agora uma postura relaxada.
Descansa o olhar no outro lado do mundo. Lá fora o som dos aviões é intenso. Pedro sorri. Desabotoa os punhos de uma camisa branca e mostra o braço tatuado. Por cima dos evidentes sinais de consumo, está desenhada uma cruz. Na subtileza de um gesto singular, passa os dedos pelas marcas. Sente as memórias do passado e de olhos postos no vazio afirma: «É a toxicodependência. A cruz da minha vida».
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Esta publicação está inserida na sequência da reportagem sobre Toxicodependência – À Margem das Emoções. Para regressar à primeira publicação, clique aqui.
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À Margem das Emoções - 7ª Parte

«As pessoas recaem. Faz parte da história natural da toxicodependência».
Num tom de voz realista, António Costa encara a ‘recaída’ como parte do processo terapêutico. «Não é uma situação para dramatizar. É uma situação para procurar não repetir», reforça.

Um processo de tratamento geralmente longo, e caracterizado por um modelo integrado de intervenção, mostra ter recursos terapêuticos activos.



De acordo com um dos coordenadores do Centro das Taipas, a função dos terapeutas passa por pegar nos utentes com períodos de consumo longos e de abstinência curtos, para convertê-los em períodos de consumo curtos e de abstinência longos.
«Ninguém consegue deixar de consumir por ninguém. Os técnicos de saúde dão a ajuda necessária para que o processo de tratamento ocorra, mas o esforço por parte do utente é essencial.»
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O recurso à psicóloga, que o acompanhou no Centro de dia do IDT, marcou o início de um novo projecto terapêutico. Uma nova aliança.
Virar a página e seguir em frente, foi o desafio a que se propôs. O olhar é agora confiante. A voz grave e baixa pondera a percepção realista de um homem marcado. «Não sou o Super-Homem, nem nunca hei-de ser. Mas sei que não quero a droga na minha vida. O tempo é o melhor remédio».
Ainda que o tempo seja um factor preponderante na recuperação de qualquer toxicodependente, também a sociedade tem um papel decisivo num processo de reinserção social. «A toxicodependência continua a ter um rótulo. Dou por mim a omitir o meu passado para conseguir um emprego».
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Os toxicodependentes continuam a ser rotulados pela sociedade, embora não sejam vistos como há vinte anos atrás. «Já não é o assaltante da seringa, o ladrão, a pessoa que pode transmitir doenças e que tem uns hábitos esquisitos que podem constituir um perigo para os nossos filhos».
A diminuição da incidência sobre os novos casos, o controlo das doenças associadas à toxicodependência e a diminuição da criminalidade, com instituições que inibem o recurso a subterfúgios ilícitos, representam alguns dos factores que justificam a nova percepção social, que gira em torno desta questão.
António Costa confirma, que hoje a toxicodependência é considerada um problema de saúde mental, que pode ser assistido, recuperado e que não tem que constituir um risco para a sociedade. «Os toxicodependentes são pessoas que deram um passo errado na vida», remata.
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À Margem das Emoções - 6ª Parte

Reconhecer as emoções. Voltar a sentir. Um processo complicado, num percurso onde os obstáculos cresciam de dia para dia.
«Não dei tempo ao tempo para viver. Vivi como sabia».
Depois de oito anos sem consumir e temporariamente afastado do IDT, Pedro recorda aquela que foi a sua terceira recaída.
Com as emoções à flor da pele, encontrou na droga o ponto de abrigo para colmatar a morte da própria tia.
Os olhos castanhos estão agora embrulhados. As lágrimas percorrem o rosto numa marcha lenta que não quer terminar.
«Nunca tinha visto uma pessoa a morrer à minha frente. Ainda tive sangue frio para a esticar no chão. Peguei nela, já cadáver e meti-a em cima da cama da minha mãe. Fechei a porta. Fui à carteira e como em frente à minha casa vendem droga, foi só atravessar a avenida e vir para casa consumir. Consumi ao lado dela, já morta. Fiquei bloqueado. Só pensava numa coisa: eu tenho que tapar isto. Quando liguei para a ambulância já tinha passado uma hora e meia».
Ainda que mostre estar consciente dos efeitos que a droga pode causar, Pedro não deixa de admitir a possibilidade de uma nova recaída. «Estive oito anos bem e caí. Quem é que me garante que isso não volta acontecer?» Levanta o olhar. Permite-se olhar o céu cinzento, para depois segredar «Já sei o que vem do outro lado. Não vem nada de bom».
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À Margem das Emoções - 5ª Parte

A metadona tem um efeito de opióide positivo, uma vez prescrito numa dose adequada, e mantém a pessoa sem necessidade de consumir heroína e capaz de desenvolver a sua vida normalmente. Ainda que numa fase inicial, a pessoa experimente uma sensação de libertação, relativamente a um ciclo diário de consumo, numa fase posterior essa libertação poderá transformar-se numa prisão.
António Costa frisa não ser bom que os utentes tenham que tomar um opióide de substituição: «A metadona é um opióide tal como a heroína. As pessoas que o administram ficam dependentes dele, ainda que sejam capazes de viver a sua vida. Há pessoas que poderão ficar a vida toda a tomar aquilo, outras que tomarão durante um tempo limitado».
A utilização da metadona pode ou não ser necessária, de acordo com o modelo integrado de intervenção de cada doente. A pessoa que decide fazer um tratamento deste género, está integrada noutros recursos terapêuticos, dos quais se destaca a relação com o terapeuta. «É da relação que se passa para a aliança terapêutica e da aliança terapêutica para o projecto terapêutico, que será revisto ao longo do tempo, de acordo com as necessidades do utente», declara António Costa.
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À Margem das Emoções - 4ª Parte

Depois de três anos a consumir droga com a mesma fonte de rendimento, Pedro despede-se de um emprego que já tinha como estável. Aos dezoito anos começa a arrumar carros, para alimentar uma dependência contínua, que se prolongou até aos vinte e cinco anos de idade.
«A minha mãe não podia sustentar um vício que era meu», reconhece. «Só a arrumar carros, conseguia cerca de trezentos euros por dia. A minha mãe costuma dizer que eu tenho um BMW num braço e um prédio de luxo no outro», confirma entre risos discretos.

Os sete anos que se seguiram fizeram da rua a única morada que tinha como certa e da heroína a sua melhor amiga. Pedro trabalhava todos os dias, sem abrir excepção a qualquer data. «Não havia Natal. Para mim era tudo igual».
Entre seringas deixadas numa cama por fazer e os comportamentos manipulativos de um filho que já não conhecia, a mãe de Pedro já não tinha dúvidas quanto à sua doença.
Com o passar do tempo a heroína deixou de ser suficiente e aos dezanove anos iniciou o consumo de cocaína – a droga que o deixava extasiado.
Deixou o medo em parte incerta e viveu a vida na eminência de um perigo evidente.
«Brinquei com a vida», recorda. Estava perdido. Vagueava entre a certeza de ter que deixar a droga e ausência de forças para o fazer. Tentou o suicídio. «Senti que era um peso para a minha família», confessou.
Com o aparecimento da EMEL, a profissão que adoptou mostrou ter os dias contados. Dividir os seus dias em deslocações entre a sua casa e o parque de estacionamento onde trabalhava, tornou-se cada vez menos rentável. Foi nessa altura que admitiu a possibilidade de um tratamento. «Ou vou roubar, ou tenho que me ir tratar», afirma.
Com vinte e cinco anos, Pedro deu os primeiros passos na direcção certa, decidido a expulsar a droga da sua vida. O passado que trazia consigo foi um dos factores que dificultou os primeiros tempos de um tratamento que não foi fácil. «Eu vinha de um ambiente complicado. Do salve-se quem puder. No mundo da droga não há amigos. A única amiga é a heroína».
Ao contrário de alguns dos seus colegas, Pedro fez o seu tratamento na ausência de metadona – um analgésico da classe dos narcóticos, que reduz os sintomas de dor neuropática, numa fase de abstinência. «Largar a droga não custa. O que custa é voltar a sentir as emoções. Viver a vida». Assevera, sem queixume na voz, para depois acrescentar: «Senti a minha “ressaca” na pele. Foi uma grande luta».
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À Margem das Emoções - 3ª Parte

Ainda que numa fase inicial, o consumo de substâncias psicoactivas, possa ser considerado através de uma abordagem psicanalítica, na medida em que a dependência é vista como sintoma de um conflito psicológico subjacente ou de uma personalidade previamente vulnerável, numa fase posterior da dependência, o problema revela contornos distintos.
Num dos gabinetes do Centro de Dia, do Parque de Saúde de Lisboa, o ambiente é tranquilo. Sentado num dos sofás do mesmo gabinete está António Costa - Coordenador do grupo de trabalho, relativo ao Consumo de Substâncias Psicoactivas e Comorbilidades Psiquiátricas, do Centro das Taipas, em Lisboa.
De olhos postos num copo com café, António Costa explica que as características psicológicas de uma determinada pessoa, poderão conduzir ao desejo de experimentar uma substância psicoactiva. No entanto, numa fase de dependência, o consumo deixa de estar associado a uma necessidade psicológica, para passar a ser uma necessidade física.
«Um cérebro que se habitua a funcionar com a heroína, por exemplo, quando ela lhe falta, ele grita dizendo – ‘Dá-me que eu preciso dela!’ – O corpo pede aos gritos e isso traduz um desejo imperioso de consumir.»

À Margem das Emoções - 2ª Parte





De mãos pousadas sobre uma mesa de madeira, Pedro volta a ser a criança de outrora. De passagem, consegue recordar todos os momentos. Mesmo aqueles, que permanecem fechados a sete chaves.
O olhar vazio esconde a história de um menino, que cresceu sem o amor de um pai alcoólico, que só viu três vezes. Entregue aos cuidados da mãe e do avô materno, cedo percebeu o ambiente violento a que foi submetido.





A alteração temporária de percepções de risco, sob o efeito do álcool, foi evidente e cedo culminou em investidas físicas difíceis de esquecer.
«Se ainda estou cá, posso agradecer a uma vizinha, que me salvou. Tinha cinco anos. O meu avô chegou a casa completamente bêbado e apertou-me o pescoço, até eu ficar sem cor».
As agressões deixaram marcas que o tempo não apagou. Ainda assim, Pedro reconhece no avô o pai que nunca teve, e preserva os bons momentos de uma relação que ainda existe.
O olhar pensativo descansa nas mãos grandes e grossas.
Tem sete anos de idade. Uma caixa de comprimidos vazia, reflectida no espelho da casa de banho, parece patentear o pior. «Foi dramático. Na altura em que eu precisava mais dela…», conta. Na obtusidade de um sopro, revive a tentativa de suicídio, por parte da Mãe, depois da discussão acesa que teve com o pai.
Virou a página mais uma vez e desejou o alento do amanhã promissor.
Pedro era um menino extrovertido e de palavras fáceis. No seu mundo de gestos ousados, não havia espaço para restrições. «Não tinha quaisquer limites. Faltava-me a mão de um pai».
Aos seis anos de idade começou a fumar e aos onze anos deixou a escola para começar a trabalhar como ajudante de camionista.
De semblante fechado, Pedro desembarga a voz para contar a experiência que definiu os tempos que se seguiram. Com doze anos de idade experimentou uma droga, que só mais tarde veio a saber que era heroína.
Curiosidade foi o motivo que o levou a consumir pela segunda vez, para depois mergulhar num mundo, onde os problemas eram mitos ausentes.
«Porque não? Estava relaxado. Estava-se bem.»
Durante cinco meses, o consumo sempre foi gratuito e feito através de amigos. Estava longe de admitir a possibilidade de se encontrar dependente de uma substância. Foi o sintoma de uma suposta constipação, que o fez perceber que estava a ‘ressacar’ de um opióide, que precisava de voltar a consumir – a heroína.
Aos quinze anos Pedro já consumia diariamente e suportar um emprego tornou-se cada vez mais complicado. «Quando tinha droga ia trabalhar. Quando não tinha, não ia», confessa resignado.
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