sábado, 21 de janeiro de 2012

A Sonoplastia - Introdução




Ausência de silêncio.


É neste sentido que Herlander Rui, um dos sonoplastas da TSF, define o som.






Mas de que forma é que o próprio silêncio pode comunicar com os ouvintes? 
Em que medida é que a linguagem sonora pode ‘valer’ única e exclusivamente por ser o que é?
Através de uma breve entrevista, Herlander Rui expõe os obstáculos que caracterizaram a sonoplastia num passado relativamente próximo, sem deixar de explicar quais os mecanismos que utiliza para captar o ouvinte, e de que forma é que a sensibilidade de um sonoplasta pode interferir na transmissão de significados distintos.
Há quem diga que ‘a rádio é o chegar lá’. Estará a expressão desta citação, intimamente ligada com a essência primordial da sonoplastia?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Vozes





IsabelQuero o mundo inteiro, nos braços. Posso?

MiguelExperimenta pousá-lo no chão. Tenta pisar a realidade. Sente o peso das fragilidades. O medo das perdas. Aquelas que motivam a adesão ao eterno e que justificam uma infelicidade, tantas vezes, egocêntrica.




Mãe do CantoQuando olho para trás, lembro-me da criança que fui. Da vontade que tive de viver tudo de um só sopro. Sem medos. Agora resta a quietude. A certeza de que o mundo é demasiado pesado para o trazer nos meus próprios braços, e de que a realidade magoa, para que me possa dar ao luxo de a sentir na ponta dos pés.

A Isabel, o Miguel, a Mãe do Canto. Três vozes. Três estórias. Três gerações distintas.
Que moral? A tua.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Incompletude Humana

As aspirações humanas são previsivelmente consensuais:
«Até posso não TER uma pessoa ao meu lado, mas tenho estabilidade económica»
«Até posso não TER uma vida financeira abastada, mas tenho uma família que me faz feliz»
«Até posso não TER um único tostão e conviver diariamente com a solidão, mas pelo menos tenho saúde»
Três frases típicas, que retratam o repositório de ilusões, de quem mergulha num mundo onde a tangibilidade do Ter supera a relatividade do Ser.
Dinheiro, Amor e Saúde – três condições, que sempre se mostraram intrinsecamente associadas à existência de um ser humano insatisfeito. As necessidades biológicas, não vão deixar de existir e precisam de ser supridas. Contraditoriamente, os estilos de vida, as imagens e as emoções decorrentes do processo de produção e de consumo, são relativamente dispensáveis, quando se destaca o valor moral, em detrimento de tudo aquilo que é unicamente material.
Não estou a menosprezar factores como o dinheiro, o amor ou a saúde, quando também eles podem e devem ser considerados, numa lógica de satisfação de necessidades distintas. Estou a apenas a relegá-los para uma esfera de consideração, que não lhes dá espaço para que se assumam enquanto factores determinantes por excelência.
Numa fase inicial, a concretização por se ter uma vida material bem sucedida parece ser suficiente e a curto prazo compensatória. Mas e quando essa espécie de concretização, se transforma em frustração? Será que há espaço para deixar que o Ser sucumba uma qualquer doutrina material, num processo de construção pessoal gradual?
Será o homem capaz de se deixar SER, ao invés de apenas TER?

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gente Perdida




O chão. Eternamente seguro. Terrivelmente confortável. Frio e quente. Onde se cruzam as pegadas de um percurso indefinido.


«Vem comigo. Anda. Dá-me a tua mão. Deixa-me mostrar-te o caminho certo»







Perdia-se vezes sem conta. Investia em viagens sem retorno, que já só existiam no mundo dos sonhos fugazes. Aqueles, que se desfazem em mil pedaços, quando encontram solo firme.
Temia ser encontrado. Por isso abraçava o próprio corpo, na incongruência de uma força desmedida.
*
«Pediu-me que lhe levasse o medo»
Há anos que preservava a mesma postura. De óculos escuros, Pedro esconde o olhar enigmático que o mundo nunca viu. A voz quente segreda ao ouvido de quem se deixa cercar ao som das estórias. Estórias de gente perdida.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

À Margem das Emoções - 8ª Parte

Pedro está hoje inserido no Projecto Vida – Emprego, promovido pelo IDT.
Embora não trabalhe há oito anos, espera inverter esta situação em Janeiro de 2012. Ter um emprego estável, uma casa própria e tirar a carta de condução, são algumas das aspirações que conta ver concretizadas no próximo ano.
As mãos pousadas sobre as pernas, e o tronco encostado sobre a cadeira de madeira deslindam agora uma postura relaxada.
Descansa o olhar no outro lado do mundo. Lá fora o som dos aviões é intenso. Pedro sorri. Desabotoa os punhos de uma camisa branca e mostra o braço tatuado. Por cima dos evidentes sinais de consumo, está desenhada uma cruz. Na subtileza de um gesto singular, passa os dedos pelas marcas. Sente as memórias do passado e de olhos postos no vazio afirma: «É a toxicodependência. A cruz da minha vida».
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Esta publicação está inserida na sequência da reportagem sobre Toxicodependência – À Margem das Emoções. Para regressar à primeira publicação, clique aqui.
Para ouvir o suporte sonoro desta reportagem, clique aqui

À Margem das Emoções - 7ª Parte

«As pessoas recaem. Faz parte da história natural da toxicodependência».
Num tom de voz realista, António Costa encara a ‘recaída’ como parte do processo terapêutico. «Não é uma situação para dramatizar. É uma situação para procurar não repetir», reforça.

Um processo de tratamento geralmente longo, e caracterizado por um modelo integrado de intervenção, mostra ter recursos terapêuticos activos.



De acordo com um dos coordenadores do Centro das Taipas, a função dos terapeutas passa por pegar nos utentes com períodos de consumo longos e de abstinência curtos, para convertê-los em períodos de consumo curtos e de abstinência longos.
«Ninguém consegue deixar de consumir por ninguém. Os técnicos de saúde dão a ajuda necessária para que o processo de tratamento ocorra, mas o esforço por parte do utente é essencial.»
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O recurso à psicóloga, que o acompanhou no Centro de dia do IDT, marcou o início de um novo projecto terapêutico. Uma nova aliança.
Virar a página e seguir em frente, foi o desafio a que se propôs. O olhar é agora confiante. A voz grave e baixa pondera a percepção realista de um homem marcado. «Não sou o Super-Homem, nem nunca hei-de ser. Mas sei que não quero a droga na minha vida. O tempo é o melhor remédio».
Ainda que o tempo seja um factor preponderante na recuperação de qualquer toxicodependente, também a sociedade tem um papel decisivo num processo de reinserção social. «A toxicodependência continua a ter um rótulo. Dou por mim a omitir o meu passado para conseguir um emprego».
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Os toxicodependentes continuam a ser rotulados pela sociedade, embora não sejam vistos como há vinte anos atrás. «Já não é o assaltante da seringa, o ladrão, a pessoa que pode transmitir doenças e que tem uns hábitos esquisitos que podem constituir um perigo para os nossos filhos».
A diminuição da incidência sobre os novos casos, o controlo das doenças associadas à toxicodependência e a diminuição da criminalidade, com instituições que inibem o recurso a subterfúgios ilícitos, representam alguns dos factores que justificam a nova percepção social, que gira em torno desta questão.
António Costa confirma, que hoje a toxicodependência é considerada um problema de saúde mental, que pode ser assistido, recuperado e que não tem que constituir um risco para a sociedade. «Os toxicodependentes são pessoas que deram um passo errado na vida», remata.
(...)

À Margem das Emoções - 6ª Parte

Reconhecer as emoções. Voltar a sentir. Um processo complicado, num percurso onde os obstáculos cresciam de dia para dia.
«Não dei tempo ao tempo para viver. Vivi como sabia».
Depois de oito anos sem consumir e temporariamente afastado do IDT, Pedro recorda aquela que foi a sua terceira recaída.
Com as emoções à flor da pele, encontrou na droga o ponto de abrigo para colmatar a morte da própria tia.
Os olhos castanhos estão agora embrulhados. As lágrimas percorrem o rosto numa marcha lenta que não quer terminar.
«Nunca tinha visto uma pessoa a morrer à minha frente. Ainda tive sangue frio para a esticar no chão. Peguei nela, já cadáver e meti-a em cima da cama da minha mãe. Fechei a porta. Fui à carteira e como em frente à minha casa vendem droga, foi só atravessar a avenida e vir para casa consumir. Consumi ao lado dela, já morta. Fiquei bloqueado. Só pensava numa coisa: eu tenho que tapar isto. Quando liguei para a ambulância já tinha passado uma hora e meia».
Ainda que mostre estar consciente dos efeitos que a droga pode causar, Pedro não deixa de admitir a possibilidade de uma nova recaída. «Estive oito anos bem e caí. Quem é que me garante que isso não volta acontecer?» Levanta o olhar. Permite-se olhar o céu cinzento, para depois segredar «Já sei o que vem do outro lado. Não vem nada de bom».
(...)