terça-feira, 1 de maio de 2012

(Im)pressão


“O Eu só se substancializa pela mediação do público (…) os actores de teatro por melhor que saibam os seus papéis e por mais vezes que os tenham representado com sucesso têm sempre medo; o que não é mais do que reconhecer obscuramente o peso decisivo de cada público na substancialização do papel apresentado”[1] (Herpin, 1982, p.80).

A projecção de uma determinada impressão e a sua posterior interpretação, constituem os dois momentos fundamentais ao longo de um qualquer processo de interacção social, que não pode estar dissociado do seu carácter eminentemente simbólico.  Cada actor é responsável pela gestão da sua apresentação pública, pertencendo à audiência o papel de a “condenar” ou “consagrar”.
Neste contexto, a linguagem assume, mais uma vez, um papel preponderante no que diz respeito aos seus processos de comunicação e de mediação, até porque, ainda que inserido numa situação de silêncio, um actor nunca deixa de transmitir uma determinada impressão. Esta questão parece ser significativa, quando se admite a possibilidade das performances corporais e gestuais, assumirem uma posição privilegiada nas interacções e nas formas de comunicação não-verbal.
No entanto, a interpretação da impressão não depende apenas da representação, mas também dos tais “portadores” ou “indícios” de informação mencionados por Goffman em “A apresentação do Eu na vida de todos os dias”, que permitem perceber a relação que poderá ser estabelecida entre a aparência e o estatuto sócio-económico de um actor, por exemplo. A valoração positiva ou negativa que cada actor faz dos estereótipos, que se encontram intimamente associados a determinados papéis sociais, explica a selecção que antecede a escolha dos papéis a que se propõem representar.

«A nossa vida social decorre sobretudo portas adentro»[2]
(Goffman, 1993, p. 285)


[1] Herpin, Nicolas. (1982) «A Sociologia Americana», Porto, Edições Afrontamento.
[2] Goffman, Erving. (1993) «A apresentação do Eu na vida de todos os dias», Lisboa, Relógio d’Água Editores.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Diário Metafísico

Fotografia por Delfim Machado

Perceber como é possível adormecer acordado, ou acordar dentro de um sonho, são algumas das questões exploradas, em Diário Metafísico – Um solo de investigação, iniciado há sete anos pelo coreógrafo e bailarino português, Pedro Ramos.

Empurrar o chão, ou ceder ao chão, são os dois movimentos corporais, utilizados ao longo desta peça, para representar a relação do consciente e do inconsciente, no corpo de uma personagem assaltada por uma realidade, que parece não conseguir controlar.
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Diário Metafísico – uma viagem pelos contornos de uma realidade indefinida, e que está em cena até ao dia 29 de Abril, no Teatro da Trindade, em Lisboa.

Para ouvir o suporte sonoro da entrevista feita a Pedro Ramos, clique aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Formidável Bigode


Formidável Bigode é o mote do mais recente espectáculo do actor e humorista português, Marco Horácio. 

Através de uma peça que sugere um genérico de paracetamol para a crise, Marco Horácio volta a dar voz à personagem inspirada no típico fadista dos bairros lisboetas, Rouxinol Faduncho.

“Dar um bigode à crise” é o desafio proposto pela personagem interpretada por Marco Horácio, que acredita que o queixume não é o ingrediente certo para fazer face à actual crise.

Um espectáculo em cena, entre 12 e 13 de Abril, no Auditório dos Oceanos, do Casino Lisboa.

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Para ouvir o suporte sonoro da entrevista feita a Marco Horácio, clique aqui.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ilusão (In) Autêntica

«Nada do que é, na medida em que aparece, existe no singular; tudo o que é está destinado a ser percebido por alguém» 
(Arendt, 1999, p.20)

Mais uma vez. 
Permitiu-se alhear do mundo, sem ser capaz de o deixar ou de o transcender. Voltou a rever as imagens que o atormentavam há anos. Até hoje, não conhecia aquelas vozes, nem conseguia estabelecer qualquer tipo de associação entre o seu passado e o seu presente. As mesmas imagens continuavam a condicionar as sombras de um futuro incerto, sem que nada pudesse fazer para alterar o rumo dos acontecimentos.
Tinha medo. Mesmo sabendo, que o seu fundamento racional podia propiciar os meios para evitar um qualquer perigo iminente.


De regresso ao mesmo mundo, continuou a “ser como queria aparecer”. Continuou a simular, a enganar intencionalmente e a iludir quem o ouvia. No fundo, era esta a lógica da “mundaneidade das coisas vivas”[1](Arendt, 1999, p.28).
Não sabia se aquelas imagens correspondiam a simples miragens, que desapareciam quando examinadas mais de perto, ou se permaneciam inerentes a uma condição da qual não podia fugir. Ainda assim, estava disposto a pagar um preço alto pela ilusão da sua própria aparência, mesmo sabendo que os erros de uma auto-apresentação, eram tão inevitáveis como as propriedades evidenciadas pela auto-mostração.


[1] «A mundaneidade das coisas vivas significa que não existe nenhum sujeito que não seja também um objecto e não apareça como tal a uma outra criatura, que garanta a sua realidade objectiva».

Arendt, Hannah. (1999), «A Vida do Espírito: Volume I – Pensar», Lisboa, Instituto Piaget.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Valor (de) Verdade

«Procuro despir-me do que aprendi | Procuro esquecer-me do modo de me lembrar que me ensinaram | E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, | Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, | Desembrulhar-me e ser eu»
Alberto Caeiro
Nove anos depois, voltou a ouvir o som dos bombardeamentos.
De olhos postos no reflexo de um espelho antigo, foi impossível interromper a fluidez de um passado aparentemente ultrapassado. Recordou as vozes dos soldados; a dimensão dos seus passos; o medo que sentiu ao ver a própria vida presa por um fio; os murmúrios nervosos e ambíguos, de quem defendia o seu país, sem nunca esquecer quem nele tinha deixado.
De olhos fechados lutou. Mais uma vez. Sem saber muito bem o porquê de o fazer. Tinha plena consciência de que aquelas imagens eram parte integrante da sua própria identidade. Uma identidade complexa, fruto de uma (re)construção permanente e, claramente, condicionada pelos esquemas de pensamento e de acção de um passado inevitavelmente interiorizado.
Interpretar a coexistência de uma realidade com os enclaves da percepção na qual se aventurou, foi o desafio ao qual se propôs.


*
Relatar mundos de significação teóricos, estéticos ou religiosos é uma tarefa cada vez mais complicada, principalmente para quem procura descrever a realidade com rigor, ou até para quem continua a acreditar que o conceito de “valor” existe ontologicamente, quando a sua existência é apenas fenomenológica.

Os alicerces do conhecimento, na vida quotidiana, são frágeis e o conceito de “verdade”, neste contexto, é cada vez mais vago. Para Jurgen Habermas, por exemplo, “o conhecimento verdadeiro só é possível em relação às condições transcendentais da representação simbólica, e já não em relação ao que é representado” [1] (Habermas, 1998, p.7).

Transferir o estatuto da verdade, do ontológico para o discursivo, evidencia a sua inacessibilidade, de forma directa, ainda que ele continue a existir através do texto. Trata-se de um estatuto de verdade construído pelo sujeito, e expresso através do discurso estruturante da concepção do real. Uma concepção, cujo carácter puramente arbitrário e convencional, permanece intrinsecamente associado, à visão que cada um tem do universo.
Mas afinal, qual o verdadeiro sentido das palavras? 
Que “valor de verdade” legitima o domínio impreciso da subjectividade?
*
«No mundo, tudo é como é, e acontece como acontece. Dentro dele não há valores, e se houvesse, seriam não valores»[2]
(Wittgenstein, 1922, p.183)


[1] Habermas, Jurgen. (1998). «On the logic of the social sciences», Cambridge, Polity Press
[2] Wittgenstein, Ludwig. (1922), «Tractatus Logico-Philosophicus», Londres, Trubner & Co.

domingo, 4 de março de 2012

Entre Lados


No palco as coisas que se mostram são simuladas; na vida, provavelmente, as coisas que surgem são reais e nem sempre foram bem ensaiadas. 
(Goffman, 1993, p. 9)[1]



[1] Goffman, Erving. (1993) «A apresentação do Eu na vida de todos os dias», Lisboa, Relógio d’Água Editores.

Confusão. Era tudo o que sentia. Por mais que se empenhasse em emergir de um mundo que não era o dele, a voz do impulso conseguia ser sempre mais forte. Mostrava-se nu diante de uma realidade aleatória que, no fundo, não conhecia.
Naquela noite mergulhou na própria sombra. Vagueou na pele de uma ‘terceira pessoa’ e questionou cada gesto, cada palavra, cada expressão.
Era tudo tão vazio.
*
A evidência de que o papel social do indivíduo não se impõe do “exterior”, mas resulta de uma progressiva adaptação, no decurso da qual ele participa de uma forma activa, confirma o fenómeno proposto por Erving Goffman, ao longo da Obra «A apresentação do Eu na vida de todos os dias». O maior interesse da analogia estabelecida pelo autor, relativamente à análise dramatúrgica da vida social, reside na forma como dois indivíduos, em situações concretas, ajustam os seus comportamentos, em função das suas expectativas recíprocas.
Neste sentido, a grande questão que se impõe ao longo da Apresentação do Eu na vida de todos os dias, prende-se com a necessidade de tentar perceber de que forma é que os indivíduos desempenham e redefinem constantemente, um determinado papel social, em cada contexto de interacção, ao invés de se limitarem a uma representação meramente mecânica. Ainda que, em determinadas situações, os indivíduos possam assumir um certo distanciamento relativamente a um qualquer papel social, na realidade, o seu desempenho nunca é completamente ‘inocente’.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Que Sentido de Objectividade?

“Um texto, uma vez separado do seu autor e das circunstâncias concretas da sua enunciação, flutua no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis”. (Eco, 1992, p.41)[1]


[1] Eco,Umberto. (1992) Interpretation and Overinterpretation, 1ª ed. Cambridge, Cambridge University Press.


De que forma é que a reconstrução discursiva do real poderá ser objectiva, subjectiva, ou até, intersubjectiva?

A ideia de que não existe um sentido preciso na análise de qualquer texto, e de que as palavras denotam significados diferentes para quem as lê ou ouve, foi uma temática desenvolvida no que diz respeito ao estudo sobre o discurso. A certeza de que a linguagem tem uma estrutura específica e de que o estabelecimento do seu real valor depende da relação existente entre as palavras e a sua estrutura, foi um dos conceitos introduzidos por Ferdinand Saussure, na sua Obra Cours de Linguistique Générale:

“A língua é um sistema no qual todos os termos são solidários e o valor de cada um só resulta quando na presença simultânea dos outros.” (Saussure, 1995, p.159)[1]

A evidente incapacidade das palavras em expressarem o real e o duplo significado, que cada pontuação ou expressão podem ter, em virtude da forma como são percepcionados por culturas distintas, mostra que o apelo a um jornalismo objectivo já não faz sentido, quando se visa fazer acreditar que os factos falam por si, e que os jornalistas se limitam ao seu relato de uma forma imparcial, quando isso, na realidade, não acontece.
Em 1948, David Krech e Richard Crutchfield estabeleceram o conceito de que a percepção é funcionalmente selectiva e que a apreensão das manifestações do real está sujeita a um elevado grau de distorção:

“Ninguém capta tudo o que existe ‘lá fora’ (…) as pessoas organizam cognitivamente a percepção em função de determinados estímulos, que incluem as suas necessidades, o seu estado de espírito, e a sua cultura.” (Kretch e Crutchfield, 1977, p.242)[2]

Ainda que pareça claro, que a percepção de cada indivíduo, influencia directamente a sua forma de apreender o real, é interessante pensar no princípio que fundamenta a ideia de objectividade, o qual advoga que a separação dos factos dos valores, e as informações das opiniões, constitui o percurso certo para chegar à verdade e à descrição dos acontecimentos de uma forma distanciada. No entanto, se por um lado o distanciamento e a imparcialidade, característicos da objectividade jornalística, poderão servir como forma de credibilizar uma qualquer componente discursiva, a verdade é que também a falta de rigor inerente às estruturas discursivas tem a sua origem no carácter arbitrário e convencional da língua. 


Para Émile Benveniste, por exemplo, “o fundamento da subjectividade está no exercício da língua”, sendo que, “é na linguagem que o homem se constitui como sujeito, porque só a linguagem funda a realidade, na sua realidade que é a do ser” (Benveniste, 1973, p. 259-262).[3]


Afinal, que moral de objectividade? Qual o 'verdadeiro chão' da realidade?


[1] Saussure, Ferdinand. (1995) Cours de Linguistique Générale, 4ªed. Paris, Éditions Payot & Rivages.
[2] Kretch, David e Crutchfield, Richard. (1977) «Perceiveing the World» in Wilbur Schramm e Donald Roberts, The Process and Effects of Mass Communication, Urbana, Illinois University Press.
[3] Benveniste, Émile. (1973) Problèmes de Linguistique Générale. 1ªed. Paris, Éditions Gallimand.